Artur Jorge, uma sucessão de proezas
Partiu o Artur Jorge cuja vida foi uma sucessão de proezas. Umas fulgurantes, estrondosamente públicas, outras pessoais, silenciosas e era destas últimas que ele mais gostava. Se falarmos de futebol, do nosso futebol, ninguém se lhe compara. Campeão nacional como jogador, campeão europeu como treinador, dinamizador e fundador do sindicato dos jogadores profissionais de futebol. Havia, no entanto, outro Artur Jorge, símbolo de toda uma geração alheia até às coisas do futebol. Artur Jorge, o rapaz bonito que despontou em Coimbra no caldo das grandes contestações ao regime, o estudante de filologia românica que concluiria a sua licenciatura na Faculdade de Letras de Lisboa quando já era jogador do Benfica, o colecionador de arte, o poeta, o leitor compulsivo, a pessoa. Talvez a sua maior proeza tenha sido aquela consabida prática de toda uma vida resguardando o seu mundo, os seus gostos, os seus interesses, os seus silêncios, os seus amigos e a sua família dos palcos barulhentos do futebol. Agora, que se foi embora, aos 78 anos, como será recordado, ele que foi um tipo incrível? Tão incrível, tão invulgar que, logo no princípio da sua caminhada, não foi, certamente, por acaso que lhe chamaram "o rapaz do pontapé-de-moinho", raro sobriquet para uma metáfora impossível.
