Floresta de pernas

Leonor Pinhão
Leonor Pinhão

Futebol para budistas

Recorrendo a muita da sua juventude o Benfica portou-se como gente crescida na Ucrânia. A vida continua e amanhã o desafio é no Restelo. Trata-se de um clássico como todos devem estar cientes. Os mais velhos da equipa que expliquem aos mais novos e aos acabados de chegar o empenho extraordinário a que um clássico obriga. Entre os tais mais novos e acabados de chegar, há um – Franco Cervi – que, tudo o leva a crer, não se vai demorar muito por estas paragens. É aproveitá-lo, portanto, enquanto cá está. Este minúsculo argentino dono de um futebol maiúsculo tem capacidades para se revelar o melhor diretor de comunicação ao serviço do futebol português pelo muito que joga e que de maravilhoso nos comunica jogando.

Franco Cervi foi intensamente disputado pelo Benfica e pelo Sporting e, tendo sido anunciado como certo em Alvalade, acabou por aterrar na Luz em boa hora. São estas as querelas entre rivais que efetivamente interessam ganhar e não as dos comunicados infantilóides nem, muito menos, as dos facílimos, e por isso mesmo desprezíveis, diagnósticos de insanidade à vista desarmada.

Que o futebol não é para budistas era um preceito da sabedoria antiga. Durou até haver redes sociais. Mais precisamente durou até esta semana. Porque quando um budista confesso do Instagram manda Cristiano Ronaldo "fazer o mesmo à mãe" comentando uma fotografia do jogador português pisando distraidamente o canteiro onde assenta uma estátua de Buda é porque até a escola dos contemplativos descambou e de que maneira. Não há milagre que o futebol não alcance, eis a conclusão.

Em Portugal, o mais recente budista do futebol não é em si menos surpreendente. Trata-se do presidente do FC Porto. Sim, o próprio. Instado a comentar a versão requentada do não-caso dos "vouchers" – recém-repescado de 2015 para substituir o ainda-menos-caso das ameaças aos árbitros que, definitivamente, não pegou –, Pinto da Costa surgiu em público para dizer que "isso são coisas que discutidas não trazem nada de bom ao futebol" e, ainda mais zen, rematou de trivela: "Eu não alinho a falar sobre que clube for em problemas dessa espécie."

Ficaram os benfiquistas sem fôlego perante a benevolência do grande adversário. Já em Alvalade foi bem mais perturbador o que se seguiu. Perante o inconveniente altruísmo alheio, não é que se viraram os teclados para a pobre Alemanha e desataram a chamar um chorrilho de nomes feios aos tipos do Borussia Dortmund só porque eram os que estavam mais à mão?

Por tudo isto era da maior conveniência que o Benfica entrasse amanhã em campo no Restelo com o maior respeito pelo adversário e ganhasse o jogo com pacifismo e elevação. No nosso futebol não é budista quem quer. É budista quem pode.

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