Leonor Pinhão
Leonor Pinhão Jornalista

Que falta fez lá na Rússia a traça de Paris

Alguma coisa terá faltado à nossa seleção em Kazan. Não foi vontade nem sorte que faltou. É injusto acusar os jogadores portugueses de pouca disposição para o cometimento e é surreal apontar o dedo aos deuses da fortuna que bem se esforçaram para impedir a saída baixa dos campeões da Europa. Por duas vezes, no mesmo lance, vimos os postes da baliza de Rui Patrício desempenhar garbosamente o papel que competia a Rui Patrício e por uma vez se viu o vídeo-árbitro dormir num lance capital em nosso desfavor. O que faltou a Portugal foi o que faltou a Cristiano Ronaldo: faltou-nos a traça.

Aquela traça que em Paris, vai fazer agora um ano, pousou magnificamente no sobrolho do estendido capitão português e fez a seleção disparar para o momento mais insólito da sua História resolveu não comparecer em Kazan e o resultado viu-se. Sem a traça a eliminação não deixou dúvidas. Ficou apenas uma coisinha por esclarecer: o castigo máximo que o jovem André Silva pretendeu, sem êxito, cavar nas barbas do árbitro iraniano no decorrer da primeira parte do prolongamento conta como o 23.º penálti roubado ao FC Porto na temporada de 2016/2017 ou contará como o 1.º penálti roubado ao AC Milan em 2018/2018? Cientistas da bola, estudem o assunto.

Prossegue, entretanto, o defeso do futebol português entregue por inteiro às barulhentas altercações entre comentadores-residentes das nossas estações de televisão. É esta uma grossa novidade mas não lhe chamaria, propriamente, um progresso civilizacional. Antes pelo contrário. Em termos, por exemplo, da secular rivalidade entre os dois emblemas da Segunda Circular, pertenço a uma antiga geração que aprendeu a gostar de futebol e dos seus clubes graças a magníficos protagonistas de duelos encantadores como Eusébio e Damas, Artur e Diniz, Bento e Manuel Fernandes, Luís Figo e Rui Costa, Chalana e o resto do mundo… Pobres gerações mais jovens que até em tempo de férias têm agora de se dividir entre um Guerra e um Pina. Ou vice-versa.

O Tour vai começar envolto numa polémica de costumes. O ciclista belga Jan Bakelants afirmou no decorrer de uma entrevista que para "ocupar os tempos livres" conta levar "uma embalagem de preservativos" porque "nunca se sabe onde se encontram as meninas do pódio". A organização do Tour exigiu-lhe imediatamente um pedido de desculpas e a equipa do Jan Bakelants, a AG2R-La Mondiale, pediu desculpa aos organizadores e ao público pela alarvidade do seu corredor. Esta historieta vinda do estrangeiro e de estrangeiros é exemplar. Por cá o patamar é outro e muito, muito abaixo. Numa recentíssima reportagem televisiva em Kazan, entrevistando adeptos portugueses, um jornalista em missão patriótica perguntava-lhes, felicíssimo consigo próprio: "E as russas? E as russas?" Que tristeza. Ninguém tem mão nisto?

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