Floresta de pernas

Leonor Pinhão
Leonor Pinhão Jornalista

Saber dar-se ao respeito

Concluída com aplausos a sua bonita aventura europeia volta o Benfica à sua não menos bonita realidade que é a de lutar pela revalidação do título nacional. Não vai ser fácil. Em campo, a discussão com o Sporting tem-se revelado magnífica no empenho e pródiga em emoções. É o campeonato da incerteza e, provavelmente, só em maio haverá campeão de futebol-jogado.

No que respeita ao futebol-falado, o Sporting não só já ganhou o título de 2015/2016 como garante que levará tudo de roldão nas décadas por vir. Assim mesmo o assegurou o presidente – "não queremos voltar à fase de ganhar 1 vez e esperar 14 anos" –, não se referindo, certamente, à conquista da Supertaça em agosto. Como se não bastasse a palavra do presidente, veio esta semana um vogal da sua direção reforçar a certeza de que "o Sporting vai dominar o campeonato português nos próximos 20 anos" contando já com este ano.

Perante isto resta ao Benfica manter o silêncio e encarar o jogo de segunda-feira frente ao Vitória de Setúbal com grande respeito pelo adversário. Tendo sido notificado, tal como o resto do país, de que os campeonatos das próximas duas décadas estão entregues ao vizinho, cabe ao Benfica fazer o possíveil para, pelo menos, impedir que o 1.º título dos 20 títulos pré-arrecadados siga já este ano para Alvalade.

A este Benfica podem vir a faltar os pontos necessários para ser campeão. Mas coragem e caráter, todos reconhecem, não lhe têm faltado. E é com isso que contamos este ano. E nos próximos 19 anos também.

Aconteça o que acontecer nas provas a que o Benfica ainda está ligado, o sereníssimo Rui Vitória soube dar-se ao respeito do futebol português e, mais difícil ainda, conseguiu conquistar o coração dos adeptos do Benfica. Numa primeira fase teve a inacreditável ajuda de Jorge Jesus. Em meia-dúzia de frases (muito) infelizes, Jesus conseguiu desbaratar o capital de estima que tinha deixado na Luz facilitando, sem querer, a vida ao seu sucessor.

Na noite europeia de quarta-feira, vendo os minutos finais do jogo na bancada abraçado por adeptos, Rui Vitória manteve-se igual a si próprio, sereníssimo sem tirar os olhos do palco onde a sua equipa se batia com os alemães. No que pensava o treinador do Benfica naqueles instantes de comunhão com o público? Pensava já no jogo com o Vitória de Setúbal, certamente. Porque o Vitória de Setúbal é que é do nosso campeonato.

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