Futebol de Rua
Escrevo este artigo diretamente do Hornets Stadium, em Sacramento, EUA, onde decorre o Mundial de Futebol de Rua, um evento com cerca de 500 participantes, cada um deles muito especial, seja pela envolvência das dificuldades da vida ou simplesmente pela dedicação em prol dos outros.
É provável que as linhas deste artigo não despertem tanto a leitura como os demais, mas é claramente as que escrevo com mais paixão e sentimento de gratidão. Estou pelo meu 7.º ano a fazer parte deste enorme evento desportivo solidário, onde o futebol é apenas mais uma forma de inclusão e de proporcionar dias de alegria a muitas pessoas especiais e fantásticas.
Mais uma prova de que este Mundial é especial é o exemplo da equipa convidada dos EUA, que foi às ruas da cidade de Sacramento buscar oito sem abrigo para estarem uma semana a conviver com os demais, com roupa lavada e comida - pelo menos uma semana feliz numa vida menos colorida.
Faço parte da arbitragem internacional há 7 anos, juntamente com o meu parceiro de caminhada Nuno Mendes, e também nesta equipa temos grandes exemplos de vida e dificuldade. O Adil, da Noruega, foi abandonado, não sabe em que dia nasceu e viveu toda a vida em instituições; o Jaka, da Indonésia, foi arrastado desde miúdo para a miséria por culpa do consumo de droga, mas felizmente, através do futebol de rua, conseguiu encontrar-se e atualmente é um homem casado e com duas lindas filhas.
Podia falar de tantas outras histórias dos árbitros do projeto presentes, como a do amigo Ed, do Canadá, ou das supersimpáticas Natalie e Sarah, do País de Gales. A todos eles o Futebol de Rua foi o veículo para a oportunidade a vida lhes deu.
Faz parte também da equipa um grupo fantástico de árbitros dos EUA. Tive a felicidade de conhecer 'Frank', um apaixonado por arbitragem, com uma família fantástica e felizmente a viver o sonho americano - nasceu Francisco e nem sempre a vida foi assim: fugiu aos 16 anos do Peru, atrás do seu pai e irmãos que tinham ido para os EUA, mas chegou à Colômbia e o dinheiro acabou, ficando a dormir nas ruas no Equador, passando fome. Acabou por ser preso e teve de voltar ao Peru, mas não parou e continuou à procura do sonho americano - anos mais tarde, conseguiu chegar aos EUA e juntar-se à sua família de 12 irmãos. Hoje em dia é um empresário de sucesso e com uma linda família.
São estas e tantas outras histórias de vida que me fazem todos os anos vir, dar um pouco de mim a pessoas que são felizes com tão pouco, e que nos devem fazer pensar quando nos queixamos de pequenos azares ou futilidades.
Termino desejando as maiores felicidades à nossa seleção nacional. que neste momento já se encontra qualificada para os quartos-final da competição. A nossa seleção está a dignificar imenso o nosso país e as nossas gentes, não apenas pelos motivos desportivos, mas também pelo exemplo, educação e profissionalismo. Parabéns maltinha, tenho orgulho em todos vós.
