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Luís Aguilar
Luís Aguilar

A lebre que partiu à frente

"A inocência do futebol está morta – talvez para sempre." Foi desta forma que, em abril de 1915, o jornal ‘The Manchester Daily’ resumia um resultado manipulado entre jogadores do Manchester United e do Liverpool. Os jogos combinados são quase tão antigos como o próprio futebol e tornaram-se globais com a explosão das apostas online, sobretudo devido à inoperância das federações locais e da própria FIFA. É verdade que nos últimos anos as instituições desportivas fizeram importantes progressos na luta contra o match-fixing, mas agora entramos na fase da lebre e da tartaruga, com uma enorme diferença: desta vez foi a lebre que partiu com avanço. O fenómeno está infiltrado em todas as competições e não poupa ninguém: jogadores, treinadores, dirigentes, árbitros ou empresários. A operação Jogo Duplo vem apenas provar os alertas em relação a Portugal que há muito tempo eram dados por organizações internacionais: competições como a Segunda Liga e o Campeonato de Portugal são tristemente vulneráveis ao fenómeno dos jogos combinados. Quem quer fazer batota aproveita sempre os mesmos motivos. Por um lado, o incumprimento salarial, tão comum nas competições nacionais e sem verdadeiras consequências para os clubes reincidentes, deixando os jogadores em situações de grande fragilidade. Por outro, as dificuldades financeiras de muitos desses clubes, permitindo a entrada de investidores estrangeiros com intenções duvidosas. Os elementos detidos são apenas a ponta do icebergue, mas seria fundamental que desta vez a montanha não se limitasse a parir um rato. A inocência do futebol pode ter sido morta há muito tempo, como antecipou o jornal inglês em 1915, mas os culpados têm de ser punidos.

Por Luís Aguilar
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