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Rui Patrício defendeu, Quaresma marcou e Portugal explodiu de euforia. Mas sobretudo de alívio! A satisfação por passar às meias-finais misturava-se com a frase mais ouvida após o jogo: "Não havia necessidade." E não havia, mesmo. Apesar da mão de pedra de Patrício e da frieza do cigano preferido de Portugal. Apesar de Pepe (melhor jogador da seleção neste Europeu). Apesar do futebol contagiante de Renato Sanches (um fenómeno como há muito não se via). Apesar de tudo isso, sofreu-se demasiado – e de forma desnecessária – frente a um adversário que baixou as linhas, abdicando de tentar controlar o jogo logo aos 2´, quando Levandowski marcou o seu primeiro e único golo na competição. Nem mesmo o empate de Renato Sanches alterou a marcha-atrás dos polacos. E só mostraram atrevimento no prolongamento porque Portugal, apesar de poder mais, também não quis assumir o jogo. No fundo, a Polónia quase que foi obrigada a sair da sua zona de conforto quando já parecia incapaz e impotente de lutar pela vitória. É uma boa equipa, sim. Mas está longe de ser uma potência futebolística para merecer uma abordagem tão conservadora da parte de Fernando Santos.
Chegou a ser desesperante a forma como o selecionador dava sinais de contenção quando se via que Portugal podia assumir as operações e poupar-se aos penáltis. As entradas de João Moutinho e de Danilo (ao invés de Rafa e até mesmo de Éder) foram uma clara demonstração de que Santos estava mais preocupado em não perder do que em resolver o assunto nos 90´ ou nos 120´. Assistiu-se a uma história tantas vezes vista nos campos de futebol europeus: uns não podiam (polacos), outros não queriam (portugueses). E o jogo, a partir do empate de Portugal, foi ensosso, secante e aborrecido. Não o vimos assim porque tínhamos as emoções em campo, mas dificilmente um adepto português conseguia elogiar um jogo destes se fosse entre duas seleções estrangeiras.
Estamos a viver um dilema provocado pela discussão mais antiga do futebol. Entre estética e eficácia. Todos se lembram de outras competições em que a Seleção jogou de forma poética, com fantasia, momentos atacantes de puro brilhantismo e… acabou eliminada. Agora parece que nos estamos a querer vingar do período das vitórias morais, apostando num futebol especulativo, em busca de um lance de veneno (como aconteceu com o contra-ataque letal frente à Croácia). Os resultados são melhores do que as exibições e vai-se formando a ideia de que não é possível ganhar a jogar bem. Mas esse conceito é perigoso e, geralmente, falso. Grécias, como a de 2004, aparecem uma vez na vida. E só jogam assim porque não têm meios para fazer de outra forma.
Basta ver as grandes vitórias de Espanha e Alemanha nos últimos anos. Venceram porque jogaram melhor e procuraram assumir os jogos com acutilância, agressividade e sempre a mostrarem mais vontade de serem felizes do que medo em não perder. E hoje a Espanha já não levanta taças porque, em parte, traiu a sua própria identidade, a sua ideia de jogo. Exemplo: começaram a aparecer elementos estáticos, e necessitados de futebol direto, como Diego Costa e Aduriz onde antes andavam os irrequietos David Villa, Fernando Torres ou, por vezes, nenhum ponta-de-lança. Perdeu-se o carrossel de passes, banalizou-se o futebol e os resultados vieram por aí abaixo. Em Espanha, apesar de não haver Xavi, ainda há jogadores que podem recuperar parte desse futebol.
Portugal, por sua vez, também não é Itália para querer ser conservador até aos limites da paciência (e já nem esta Itália joga assim). Fernando Santos tem ao seu dispor elementos com elevados recursos técnicos e capacidade ofensiva para pôr a equipa a jogar um futebol mais afirmativo. Especialmente contra adversários como a Polónia, sem a mesma qualidade criativa. No final, o que conta é ganhar, claro. Seja nos minutos finais do prolongamento ou nos penáltis. Mas a Seleção pode ganhar melhor, com mais calma, segurança e tranquilidade, sem se pôr tanto a jeito de um desfecho triste (e ontem podia ter acontecido, tal a forma como o selecionador deixou o jogo arrastar-se para os penáltis quando tinha armas que lhe permitiam tentar "matar" a eliminatória antes). E, acima de tudo, sem sofrermos tanto do coração. Scolari tinha a Nossa Senhora do Caravaggio. Fernando Santos tem uma santa ainda mais poderosa. Mas os milagres não duram para sempre. E todos estamos fartos do quase. Ontem chegámos às meias-finais de um Europeu pela quinta vez. Agora queremos o que nunca tivemos: ficar com a taça. Mas para isso é preciso jogar mais. Até porque o que aí vem – seja País de Gales ou Bélgica – obriga a mostrar futebol de maior qualidade.