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Compra de votos para Mundiais e eleições do organismo, tráfico de bilhetes no mercado negro, subornos de toda a ordem e feitio, negócios ilegais de vendas de armas em troca de apoios políticos. Detenções, julgamentos, delatores, FBI. Esta é a marca da FIFA na atualidade. E poucos acreditam que alguma coisa possa mudar a partir de amanhã. Um inquérito divulgado pela ONG Transparência Internacional mostra que 69% dos adeptos não confiam que o organismo deixe de ser corrupto. Ao mesmo tempo, Gianni Infantino, o candidato da UEFA, diz que este é o momento do "agora ou nunca" para restaurar a credibilidade da FIFA. Palavras que, por agora, não são mais do que isso. E que chocam de frente com algumas das decisões dos últimos dias.
O príncipe Ali bin Al-Hussein pediu ao TAS para adiar as eleições. O jordano tinha requerido a instalação de cabinas de voto transparentes, defendendo que era a única forma de tornar a votação clara. Primeiro, a sua intenção foi rejeitada pela FIFA. Depois, pelo próprio TAS. Al-Hussein teme que os presidentes das federações não votem de acordo com a sua consciência, mas sim por causa de compromissos e medo de represálias: "Deixem-me contar-vos o que acontece quando não se alinha com os poderes instalados na FIFA. Os projetos de desenvolvimento deixam de avançar. As candidaturas à organização de torneios ficam comprometidas. As equipas nacionais começam misteriosamente a ter sorteios menos favoráveis, mesmo os árbitros começam a apitar contra eles. São tudo formas eficazes de punir quem não mostra lealdade política", alertou o príncipe.
Seguem-se as acusações de votos em bloco entre as confederações de África (CAF) e Ásia (AFC) para favorecer o presidente desta última, Salman Al Khalifa. O xeque do Bahrein já foi acusado de ser cúmplice na detenção ilegal e na tortura de alguns atletas que participaram numa manifestação pró-democracia no seu país. Apesar das suspeitas, o comité de integridade da FIFA aprovou a sua candidatura. Al Khalifa passeia-se por Zurique com sorrisos e promessas de reformas. Jérôme Champagne, outro dos que está na corrida, acusa a FIFA de dar muitas credenciais aos elementos da UEFA e da AFC para que estes possam fazer lóbis em Zurique nas vésperas da votação. Os tais compromissos de corredor tão habituais antes dos processos eleitorais da FIFA. É preciso mudar, mas parece que não mudou assim tanto.
E também é preciso dinheiro. Nas últimas horas apareceu um patrocinador secreto interessado em investir 750 milhões de euros nos próximos dez anos para tirar a FIFA do atual pesadelo financeiro em que se encontra. O órgão que se orgulha de ter uma reserva financeira de 1,5 mil milhões de dólares (superior, por exemplo, à da ONU) registou prejuízos em 2015 na ordem dos 365 milhões de euros. Motivo: elevadas despesas com advogados e consultores para tentar minimizar os escândalos de corrupção do último ano. Sim, o dinheiro faz sempre falta. Até mesmo na FIFA. Sobretudo na FIFA. Mas um patrocinador secreto em vésperas de eleições pode não passar a melhor imagem. Nenhum consultor de relações públicas fez essa observação? Talvez esteja a receber a mais para o serviço prestado.
A transparência, pelos vistos, continua a ser um conceito estranho para a FIFA. Estão lá muitas promessas: limitar mandatos, divulgar os salários dos dirigentes ou ter mais mulheres no comité executivo. Mas parece que continua tudo na mesma pelos corredores de Zurique. Muita azáfama, contestação, polémica, acusações e cartas escondidas debaixo da mesa. Todos à espera do melhor negócio. E ao mesmo tempo, Blatter até se prepara para lançar um livro em mais um exercício de beatificação pós-tempestade, clamando a sua eterna inocência e classificando todos os outros de diabos. Resta saber se esta FIFA será nova ou se terá mais um Blatter como nome diferente. Os sinais, neste momento, são pouco animadores.