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Luís Aguilar
Luís Aguilar

O fim do tiki-taka e uma Itália que não é só ‘catenaccio’

O jogo grande dos oitavos-de-final foi bem resumido pela edição online da Marca: "Espanha deixa de ser uma equipa campeã." Em apenas dois anos foram-se as coroas da La Roja. Ficou-se pela fase de grupos do Mundial do Brasil e abandonou o Europeu de França totalmente neutralizada pela Itália. Faz-se agora ouvir tudo aquilo que já tinha sido dito em 2014: fim de ciclo, necessidade de reformular o tiki-taka, mudança geracional. O céu desabou sobre o país que que dominou o futebol de seleções entre 2008 e 2012.

Sobram as dúvidas em relação ao caminho a seguir no futuro e à estratégia para regressar à ribalta. Para já, ficam as ondas de choque. E a certeza de que nada é como era. "Não temos o nível de quando ganhámos o Mundial e o Euro", lembrou Piqué no final do jogo.

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O novo embate com a dura realidade aconteceu logo numa competição em que a Espanha parecia querer mostrar que a campanha no último Mundial tinha apenas sido um acidente de percurso, pronto a emendar na oportunidade seguinte. Deu ideia de que podia ser assim depois das vitórias frente a República Checa e Turquia. Mas depois veio aquele jogo com a Croácia e percebeu-se que esta Espanha, afinal, continuava a caminhar na corda bamba.

Jogadores como Iniesta e David Silva começaram a cair fisicamente. Fàbregas e Pedro mantiveram o nível baixo que trouxeram desta época no Chelsea. Outros, como Morata e Nolito, foram insuficientes para manter o coração da equipa a trabalhar. E ainda houve lugar para estranhas opções de Del Bosque que deu poucos minutos a jogadores como Koke e Thiago Alcântara. Ambos, em teoria, teriam condições para dar mais vivacidade ao meio-campo espanhol. Fernando Torres, após uma grande época no Atlético de Madrid, ficou em casa.

O selecionador espanhol parece estar como o futebol da sua equipa. Demasiado cansado para mudar. E aqui a Espanha acaba por pagar o preço da sua própria glória. Mesmo depois do fracasso do Mundial do Brasil, o país futebolístico não conseguiu ver Del Bosque como um treinador que tinha sido incapaz de modernizar a equipa. Como poderia? Del Bosque deixou de ser apenas um treinador de futebol no momento em que Iniesta bateu Stekelenburg no prolongamento da final de África do Sul. Aquele remate certeiro mudou tudo. Del Bosque passou a ser lenda viva. Um deus em forma de homem. Assim como todos os jogadores dessa equipa. Tinha sido a vitória da estética, da beleza e do jogo com bola frente aos exércitos das máquinas defensivas. Demasiado romântico para ser verdade. Mas foi. E durou. Até que acabou. Como qualquer grande história de amor.

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A derrota com a Itália foi mais uma prova de que há coisas que não se podem reciclar. É preciso começar de novo. Tal e qual como aconteceu quando o tiki-taka surgiu no lugar da anterior "fúria espanhola". Agora será necessário encontrar algo que adote o melhor de cada uma destas versões. Mas com outra linguagem. Porque já não há Xavi, nem sequer um clone mais novo em formação (o mais próximo que o Barcelona conseguiu arranjar para substituir o seu médio de culto foi Rakitic, um croata). E Iniesta, como se viu, também não é para sempre. Assim como David Silva. Sem eles, ou outros como eles, não há tiki-taka. Por outro lado, as grandes estrelas ofensivas que brilham na liga espanhola são quase todas estrangeiras: Ronaldo, Messi, Neymar, Suárez e Griezmann.

Há novo talento em Espanha, claro. E muito. Mas não podem obrigar a nova geração a ser uma cópia da primeira. E a mudança também não surgirá com o mesmo homem ao leme. Del Bosque é grande, enorme, figura histórica do futebol – assim como Aragonés foi antes dele –, mas tudo tem um fim. E viu-se perante os italianos.

Os espanhóis não só perderam como foram apagados do jogo. Uma enorme lição tática de Antonio Conte. Deve ter deixado os adeptos do Chelsea à beira de um orgasmo coletivo. O domínio italiano foi tão evidente que ao intervalo só se estranhava a vitória pela margem mínima. Não fosse De Gea e tudo podia ter ficado resolvido nos primeiros 45´ ou nos minutos iniciais do segundo tempo. A receita da Itália é simples e tem sido infalível: defender muito bem, contra-atacar com veneno e confiar totalmente em Buffon quando tudo isto falha.

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O líder da equipa voltou a estar lá quando foi preciso. Negou o golo a Piqué por duas vezes com defesas extraordinárias e ainda se riu para Iniesta depois de defender um remate do génio do Barça. Buffon é um espetáculo total. Na forma como joga e como sente o jogo. Já não há muitos assim. Talvez não haja mais nenhum como ele. Aos 38 anos, ainda ensina muitos jovens adeptos a admirarem a arte dos donos da baliza.

Mas nem tudo se resume a Buffon ou à extraordinária capacidade defensiva dos transalpinos. Foi como disse Conte no final do jogo: "Provámos que esta Itália não é só ‘catenaccio’." Não é, não senhor. Com a Espanha não foi. E mereceu totalmente esta glória e a chegada aos "quartos". Por momentos até deu a ideia de que se o 2-0 tivesse chegado antes, os espanhóis podiam ser goleados. E só de pensar que ainda em 2012, a Espanha aniquilou a Itália (4-0) na final do Euro. Tempos idos. E a prova de que a história nem sempre se repete e o tempo não volta para trás. Será que a Espanha vai perceber?

Por Luís Aguilar
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