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Podia esta crónica ser um balanço desportivo sobre os momentos mais marcantes e polémicos do ano que agora termina. Podia ser sobre a viagem de Jorge Jesus de um lado para o outro da Segunda Circular e de todas as implicações nefastas que essa mudança teve – e terá – nas relações cada vez mais bélicas entre águias e leões.
E podia também ser sobre o futebol dos bastidores. Das políticas e politiquices. Da corrupção. Como as prisões na FIFA, o fim de Blatter, Platini e tantos outros. E um prenúncio de que, realmente, ainda pode haver esperança e uma nova vida para o organismo que rege o futebol mundial. Longe da vergonha das últimas décadas.
E depois temos Portugal. E os direitos televisivos que muita tinta fazem correr nestes últimos suspiros de 2015. E a velha história do "meu é maior do que o teu" com comentadores a lançar chavões que ficam sempre bonitos, mas que pouco querem dizer, como "maior negócio do futebol português". Será mesmo?
Benfica, FC Porto e Sporting conseguem, juntos, angariar perto de 1,5 mil milhões de euros para os próximos anos. Os outros, os pequenos, ficam com as migalhas. Retrato de um país em que as desigualdades entre os ricos e os restantes são cada vez mais acentuadas. E nova prova de que a classe média também vai sendo assassinada no futebol. Algo tão bem lembrado pelo treinador do Nacional, Manuel Machado, na sua última conferência de imprensa e numa das grandes intervenções de uma figura do desporto português em 2015. E tudo isto acontece perante a inoperância do presidente-fantasma da Liga. Proença foi um grande árbitro, mas é um dirigente inexistente.
Podia ainda ser sobre a forma como os comentadores dos clubes estão a amachucar o futebol e a contribuir – com o patrocínio de quase todas as televisões – para um clima de ódio e iliteracia futebolística onde interessa apenas amachucar o adversário através do insulto, do ataque pessoal e das insinuações maldosas. Poderia ser sobre uma nova estirpe de adepto doente que perde mais tempo a ver estes programas do que os jogos da sua própria equipa. Assim como esses próprios comentadores. Também eles, muitas vezes, não assistem aos jogos. Limitam-se a ler o que foi escrito pelos departamentos de comunicação dos clubes que representam. Sem personalidade, sem graça, sem credibilidade, sendo apenas amplificadores de mau gosto e do mau gosto.
Podia ser sobre tudo isto. Mas não. Esta última crónica do ano é sobre jogadores. Dois grandes jogadores. Dois magos. E sobre aquela que, para mim, é a imagem do futebol em 2015. Em que eles se cumprimentam após a última final da Liga dos Campeões. Xavi (Barcelona) e Pirlo (Juventus). A despedirem-se dos seus clubes no derradeiro jogo da prova milionária. Como só os grandes podem fazer. Antes de retirarem para uma reforma milionária e merecida. O espanhol no Qatar, o italiano nos Estados Unidos. Ainda não penduraram as botas, mas não andam longe. Foram dois dos maiores médios de sempre. Esta crónica é para eles e para jogadores como eles. Que 2016 nos continue a trazer muitos craques como Xavi e Pirlo e deixe de lado o fogo de artifício. Feliz ano novo para todos os leitores! E até para a semana…
Por Luís Aguilar