_
Há mitos que inspiram um povo. E há mitos que, quando se prolongam para além do seu tempo, acabam por impedir esse mesmo povo de avançar. Portugal conhece bem essa história.
No futebol, talvez estejamos a viver uma versão moderna desse fenómeno. A cultura exacerbada do líder raramente produz equipas vencedoras. Pelo contrário, oprime o talento coletivo, inibe a criatividade individual e transforma uma equipa numa estrutura ao serviço de uma única figura.
Cristiano Ronaldo não deve jogar porque "merece", porque tem um passado extraordinário ou porque é uma lenda do futebol. Apesar de esse passado merecer um respeito eterno, o presente, por muito que doa, exige rendimento. Numa Seleção Nacional deve jogar quem está em melhores condições para competir ao mais alto nível.
Aos 41 anos, um Campeonato do Mundo exige uma intensidade física e mental sem paralelo. A experiência continua a ser um ativo valioso, mas não pode substituir aquilo que o corpo, inevitavelmente, já dificilmente consegue oferecer durante 90 minutos. Basta olhar para as explosões físicas de Mbappé ou Vinícius, capazes de desafiar a própria lei da gravidade, para perceber a exigência do futebol moderno.
Mas a responsabilidade não termina no jogador. A questão do selecionador é ainda mais preocupante. Mais uma vez temos uma das melhores gerações da história do futebol português e, no entanto, continuamos sem ver uma liderança capaz de tomar decisões difíceis, libertar a equipa da dependência de uma única referência e transformar talento individual numa verdadeira equipa.
Existe, porém, um problema ainda mais profundo, a cultura competitiva que se instalou no futebol. A minha experiência enquanto atleta olímpico diz-me que qualquer atleta de topo das modalidades ditas amadoras sabe que representar Portugal é um compromisso absoluto. A preparação e o foco tornam-se inegociáveis. Durante uma grande competição desaparecem estatutos, egos, distrações e zonas de conforto. Existe apenas um objetivo, um orgulho único: servir a Seleção. Para além dessa causa nobre, há poucas recompensas que se comparem a esse privilégio.
No futebol dos milhões, continua a existir a pele da estrela quando deveria emergir o atleta nacional. Vestir a camisola de Portugal deveria significar entrar num modo diferente, menos celebridade, menos marketing, menos culto da personalidade e muito mais espírito de missão.
O episódio da praia antes da competição foi, nesse contexto, um erro de imagem. Independentemente das justificações fisiológicas que possam existir, falo por experiência própria ao afirmar que, para a alta competição, a praia nunca foi boa “conselheira”. A perceção transmitida foi a de descontração quando o país esperava concentração absoluta. Trouxe inevitavelmente à memória episódios lamentáveis de seleções passadas, não pelos factos em si, mas pelo simbolismo de uma preparação onde a imagem pública parece sobrepor-se à exigência competitiva.
Depois o jogo com o Congo. Em demasiados momentos, Portugal faz lembrar um encontro de solteiros contra casados. Falta intensidade, agressividade competitiva, sentido de urgência e aquela sensação de que cada bola pode decidir um Campeonato do Mundo.
Também o papel do capitão merece reflexão. Um capitão existe para colocar a equipa acima de qualquer interesse individual. Quando a narrativa passa demasiadas vezes pelos recordes pessoais, o foco coletivo perde-se.
O mais inquietante é que este fenómeno parece ter contaminado até na forma como os jogos são narrados. Portugal aproxima-se da baliza e ouvimos, como aconteceu no último jogo, mesmo nas raras ocasiões de perigo: "Ronaldo quase marcou." Como se o centro da história fosse a corrida para os mil golos e não aquilo que verdadeiramente interessa: Portugal vencer.
As areias movediças têm uma característica cruel, quanto mais nos debatemos para permanecer onde estamos, mais depressa nos afundamos, impedindo-nos de libertar o enorme talento coletivo que Portugal tem à disposição.
Talvez tenha chegado o momento de abandonar o nosso sebastianismo futebolístico e permitir, finalmente, que a equipa, como um todo, venha ao de cima, chegando onde tenha de chegar!
Por Luís Alves Monteiro