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Chamaram-lhe tempestade. Natural. Violenta. Excecional.
Mas o que verdadeiramente ficou exposto não foi apenas a força do vento ou o volume da chuva — foi a fragilidade de um sistema político que continua a confundir prevenção com retórica e prontidão com improviso.
A crise que se seguiu à tempestade Kristin revelou falhas demasiado grandes para serem tratadas como meros lapsos operacionais. Houve demora na reação, hesitação na declaração do estado de calamidade, ministros desalinhados, justificações contraditórias e uma comunicação pública que oscilou entre o embaraço e o absurdo. Num momento em que o país precisava de clareza e liderança, recebeu explicações circulares e frases que rapidamente entraram para o anedotário nacional. Desde responsáveis técnicos a garantirem que “não se justifica” recorrer a mecanismos europeus porque “ainda não esgotámos a capacidade”, até membros do Governo a repetirem, quase como um mantra tranquilizador, que “estamos num processo de aprendizagem coletiva” expressão que, dita uma vez poderia soar a humildade, mas repetida perante o caos acabou por transmitir resignação. E, como se não bastasse o ruído, ecoou ainda a infeliz observação do ministro Castro Almeida sobre os ordenados de janeiro, uma referência desligada da realidade de muitas das vítimas que nem chegaram a ver esse salário, porque as empresas simplesmente pararam e o rendimento desapareceu com a tempestade.
Começando pela evidente impreparação de quem tinha a tutela direta da área, até à insensibilidade política de quem deveria representar o topo da responsabilidade governativa, o discurso foi tantas vezes desligado da realidade que se tornou impossível não questionar a noção de empatia institucional. Quando, perante vidas perdidas, se ouvem formulações frias e burocráticas como “aqueles que não evitaram a trágica consequência de perderem a vida”, não é apenas um erro de comunicação, é um sintoma de distância humana. É a linguagem técnica a sobrepor-se à linguagem humana num momento em que o país precisava exatamente do contrário.
E depois houve o episódio que ficará como nota de rodapé, mas também como símbolo do tempo político em que vivemos: o vídeo institucional de um ministro, cuidadosamente editado, música solene, enquadramentos estudados, divulgado em plena crise para demonstrar ação e liderança, retirado horas depois, mas já eternizado nas redes como um “tesourinho deprimente”. Não pelo conteúdo em si, mas pelo contraste. Enquanto milhares aguardavam eletricidade e comunicações, a máquina comunicacional parecia mais preocupada com perceção do que com resolução. A política transformada em produção audiovisual num momento que exigia botas no terreno e menos filtros digitais.
Portugal orgulha-se de ser campeão das políticas de prevenção. Tem planos, relatórios, estratégias e conferências. Tem uma proteção civil que, no papel, é robusta e preparada. Mas entre o planeamento e a execução abre-se frequentemente um abismo. Planeia-se muito, executa-se pouco e comunica-se pior. O resultado é um paradoxo recorrente: somos exímios a desenrascar, mas incapazes de estruturar; rápidos a reagir mediaticamente, mas lentos a resolver concretamente. O mesmo se reflete noutras áreas onde o longo prazo deveria ser bússola e não rodapé. O tão anunciado Plano de Desenvolvimento Desportivo, por exemplo, terá agora de lidar com menos uma infraestrutura crítica — uma das já raríssimas pistas cobertas de Pombal — lembrando que visão estratégica não é apenas publicar documentos, é proteger e reforçar os alicerces físicos que permitem a prática desportiva.
A tempestade foi, sem dúvida, severa. Mas a severidade meteorológica não pode servir de escudo permanente para a insuficiência administrativa. No século XXI, esperar mais de duas semanas para repor serviços básicos não é apenas um atraso técnico é uma falha de organização, de coordenação e, sobretudo, de prioridade política. Quando a exceção se torna padrão, já não é exceção: é método.
O problema não é a natureza ser imprevisível. O problema é o Estado continuar a sê-lo também.
Constrói-se muitas vezes de forma desordenada, licencia-se sem visão e fiscaliza-se com laxismo. Depois, quando chega a destruição, descobre-se que a verdadeira prontidão não era para a proteção era para a desgraça. A máquina ativa-se, os discursos sucedem-se, as visitas oficiais multiplicam-se e os relatórios prometem reformas futuras. Entretanto, os cidadãos ficam à espera do básico: eletricidade, água, comunicações, respostas.
O “Estado de Prontidão” tornou-se, ironicamente, um estado de reação tardia um Estado de APAGÂO!.
Não falta talento técnico no país, nem dedicação nos operacionais no terreno. Falta coerência estratégica no topo. Falta cultura de execução. Falta humildade política para admitir erros antes que eles se tornem crónicos — e para perceber que um país não pode viver eternamente em processo de aprendizagem coletiva sempre que a realidade bate à porta.
Porque uma tempestade pode ser inevitável.
Mas o caos que se lhe segue raramente é
Por Luís Alves Monteiro