Apitos Coloridos: o problema não é o escândalo
Vivemos num país onde a linha ténue entre o favor, o compadrio, o jeitinho e a exigência do cumprimento das regras é, muitas vezes, demasiado ténue. Talvez por isso exista um sentimento de impunidade tão enraizado. Confundimos facilmente o favor com a prevaricação, a proximidade com o direito ao favor e a amizade com a obrigação de fechar os olhos. Há casos em que não basta ser competente. É preciso ser sério, ter educação cívica e perceber que o interesse público está acima das circunstâncias pessoais.
Transportemos este síndrome para o futebol, um ambiente altamente corporativo onde se misturam emoções, fanatismos, interesses, amadorismo e milhões de euros. Tudo isto regulado por entidades que disputam poderes, onde intervêm políticos e personalidades de todos os quadrantes, muitos deles toldados pelas paixões clubísticas. Neste ambiente, os árbitros desempenham um papel particularmente importante e frágil. Antes de serem excelentes conhecedores das leis do jogo, têm de ter as bases necessárias para exercer a profissão com integridade.
Mas talvez o problema não esteja apenas no eventual escândalo. Talvez devêssemos perguntar por que razão chegámos aqui.
Em 2021, juntei um grupo de personalidades da sociedade civil para criar um think tank que pensasse como poderia o desporto, com a sua enorme capacidade agregadora, despertar uma nação. Um dos elementos desse grupo, que tive a honra de presidir, chamava-se Duarte Gomes, o árbitro que agora veio a público denunciar o que considera poder ser um esquema de favorecimento na arbitragem portuguesa.
Não fico admirado. Sempre me habituei a vê-lo como uma pessoa íntegra e honesta. Duarte Gomes resolveu bater com a porta, com desapego ao poder, denunciou o que entendia dever denunciar e foi fiel aos seus princípios. E o que acontece depois? Um sistema pouco solidário por natureza, permeável ao favor e aos arranjinhos, pode rapidamente virar-se contra quem se desalinha. É uma história que conhecemos bem, tantas vezes repetida quando pequenos poderes e ambições desmedidas se sentem incomodados.
É aqui que começa, para mim, o verdadeiro problema. Não é apenas saber se um árbitro errou, se alguém favoreceu alguém ou se existe ou não um esquema. É perceber que tipo de pessoas queremos colocar em posições onde uma decisão pode influenciar carreiras, clubes, a credibilidade de uma competição e, em última análise, milhões de euros. E perceber também que sistema criámos para seleccionar, formar, acompanhar e proteger essas pessoas.
O Governo tem responsabilidades, claro que tem. Não pode limitar-se a despejar dinheiro sobre os problemas e achar que resolveu alguma coisa. O dinheiro é importante, mas não substitui princípios, cultura organizacional ou responsabilidade. Há uma tendência para atacar a consequência e esquecer a causa, porque a causa é mais incómoda, mexe com pessoas, interesses e poderes instalados.
Não sei se existe um esquema, nem me compete fazer esse julgamento. Isso terá de ser apurado pelas entidades próprias. Mas sei que quando alguém com responsabilidades e conhecimento do sistema decide falar, o mínimo que uma sociedade séria pode fazer é ouvir e investigar. Não transformar automaticamente o denunciante no problema.
Foi precisamente para isso que aquele grupo de cidadãos se juntou em 2021. Para pensar o desporto para além das medalhas, dos resultados e dos interesses imediatos. Para perceber que o desporto também pode ser uma escola de cidadania. E talvez seja essa a grande ironia de tudo isto. Falamos muito da importância do desporto para formar pessoas, mas esquecemo-nos frequentemente de que aqueles que estão dentro do sistema também têm de ser formados pelos mesmos valores.
Por isso, amigo Duarte Gomes, gabo-lhe a coragem. Não sei se tem razão em tudo o que denunciou, isso terá de ser apurado. Mas sei que é preciso coragem para bater com a porta quando seria mais fácil ficar sentado do lado de dentro.
Talvez mais importante do que o eventual escândalo que estamos a discutir seja perceber por que razão são tão poucos os que têm coragem de o denunciar.