COI, Kirsty Coventry e a mudança: milhares de milhões em receitas, mas qual o legado para os atletas?

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Costumo dizer que a mudança é a única constante do mundo em que vivemos. Quem não aceita ou não abraça a mudança, quem continua a fazer as coisas da mesma forma esperando resultados diferentes, quem não se prepara nem prepara os outros para a velocidade com que o mundo evolui, quem não arrisca, acaba inevitavelmente por ficar para trás.

Vem isto a propósito das recentes declarações da Presidente do Comité Olímpico Internacional, Kirsty Coventry, quando afirmou que continua a não defender o pagamento aos atletas pela participação nos Jogos Olímpicos, acrescentando que existem outras formas de os apoiar apontando o seu caso pessoal como exemplo, esquecendo as enormes benesses em dinheiro, que o seu País de origem lhe concedeu enquanto atleta.

As declarações geraram debate. Mas, mais importante do que discutir a frase em si, é discutir aquilo que ela deixa por dizer.

Importa, desde logo, não confundir dois temas distintos. O primeiro é o reconhecimento e compensação dos atletas durante a sua carreira desportiva. Podemos discutir se os apoios existentes são suficientes, se deviam ser maiores ou menores, quais os critérios mais justos e como se comparam com os modelos do desporto profissional. Mas estas medidas são, por natureza, transitórias. Têm um princípio e um fim e esgotam-se normalmente quando termina a carreira competitiva.

O segundo tema, muito mais relevante e frequentemente ignorado, é o que acontece depois. A evidência científica disponível aponta para uma realidade consistente: entre 30% e 50% dos atletas de elite e olímpicos reportam dificuldades significativas na transição para o pós-carreira. Entre 10% e 20% apresentam sintomas relevantes de ansiedade, depressão ou sofrimento psicológico após o abandono da competição.

Ao mesmo tempo, os estudos demonstram que os atletas que conseguem desenvolver uma dupla carreira, combinando desporto, formação académica e preparação profissional, apresentam uma adaptação muito mais bem-sucedida à vida após o desporto.

Os números ajudam ainda a enquadrar outra realidade frequentemente esquecida. Em estudos realizados com atletas de alto rendimento, cerca de 26,5% declararam rendimentos anuais inferiores a 15.000 dólares durante a carreira desportiva, enquanto aproximadamente metade afirmou não receber qualquer compensação direta pela participação olímpica.

Perante estes dados, talvez a pergunta mais importante não seja se os atletas devem ou não ser pagos durante os Jogos Olímpicos; talvez a pergunta certa seja: o que acontece aos atletas quando os aplausos terminam?

Porque a verdade é simples: a esmagadora maioria dos olímpicos passará muito mais tempo como ex-atleta do que como atleta, e é precisamente por isso que o debate precisa de mudar.

Importa também colocar esta discussão na sua verdadeira dimensão financeira. O Comité Olímpico Internacional é hoje uma das organizações desportivas mais poderosas e financeiramente sólidas do mundo. No ciclo olímpico 2021-2024, as receitas ultrapassaram os 7,7 mil milhões de dólares, provenientes sobretudo dos direitos de transmissão televisiva e dos programas globais de patrocínio. 74% deste valor foi alocado ao desporto e muito do restante montante foi para alimentar salários chorudos dos Diretores e despesas de staff.

Mais impressionante ainda é o facto de o próprio IOC já ter assegurado cerca de 7,3 mil milhões de dólares em receitas contratualizadas para o ciclo 2025-2028, tendo igualmente garantidos mais de 6 mil milhões de dólares para o ciclo seguinte, demonstrando uma capacidade de geração de receitas e uma previsibilidade financeira raramente vista no panorama desportivo mundial.

Mesmo em anos sem Jogos Olímpicos, o COI continua a movimentar centenas de milhões de dólares. Em 2025, por exemplo, registou receitas próximas dos 650 milhões de dólares e ativos superiores a 6,9 mil milhões de dólares.

Perante estes números, torna-se difícil defender que os desafios relacionados com a transição de carreira, empregabilidade, saúde mental ou qualificação profissional dos atletas resultam de falta de recursos financeiros. A questão passa a ser outra: quais são as prioridades?

Porque se o Movimento Olímpico consegue mobilizar milhares de milhões de dólares em cada ciclo, então também tem capacidade para construir soluções estruturais para aqueles que constituem a sua verdadeira razão de existir, e essas soluções existem.

Passam por programas obrigatórios de preparação para o pós-carreira ainda durante o percurso competitivo. Passam por modelos de dupla carreira verdadeiramente integrados entre federações, universidades e empresas. Passam por programas globais de mentoring entre atletas ativos e antigos atletas. Passam por apoio psicológico estruturado durante os anos mais críticos da transição. Mas, se eventualmente o COI diz que tudo isto já existe, então o desafio passa pela responsabilização dos intervenientes e, sobretudo, pela criação de métricas de acompanhamento do pós-carreira que permitam medir taxas de emprego, níveis de rendimento, qualidade de vida e integração social dos ex-atletas.

Mas talvez exista uma solução ainda mais transformadora, ainda que mais desconfortável para o próprio sistema: o fortalecimento de uma associação mundial de atletas verdadeiramente independente, sustentável e representativa.

A World Olympians Association tem potencial para desempenhar esse papel. Mas, para tal, precisa de se libertar definitivamente das amarras institucionais que ao longo dos anos limitaram a sua capacidade de intervenção e afirmação. Uma organização de atletas não pode depender exclusivamente daqueles que também deve questionar, sob o risco de se anular e de perverter a sua vocação na defesa dos atletas (ainda não ouvimos o que a WOA pensa sobre o assunto, um silêncio perturbador).

Uma organização de atletas deve ter voz própria, estratégia própria e sustentabilidade financeira própria. E essa sustentabilidade pode ser construída através de uma proposta de valor diferenciadora para a sociedade e para as empresas.

Durante demasiado tempo olhámos para os atletas apenas pelo que fizeram nas pistas, nos campos ou nas piscinas. Mas o verdadeiro valor dos atletas vai muito além das medalhas.

Os atletas olímpicos representam liderança, disciplina, capacidade de superação, gestão da adversidade e trabalho em equipa, competências cada vez mais valorizadas por empresas que procuram combinar desempenho económico com propósito social e impacto positivo.

Num mundo onde as organizações são cada vez mais avaliadas pelas suas métricas ESG e pelos seus compromissos de sustentabilidade, os atletas podem desempenhar um papel relevante na construção de programas de liderança, inclusão, bem-estar, educação e impacto social.

Trata-se de uma oportunidade de benefício mútuo, que já pus em prática com muito sucesso em Portugal. As empresas encontram parceiros credíveis para concretizar os seus objetivos sociais, os atletas encontram oportunidades de integração profissional, desenvolvimento pessoal e valorização das competências adquiridas ao longo da carreira desportiva.

Uma verdadeira solução win-win. Curiosamente, a independência financeira dá voz e capacidade interventiva, mas acarreta também um desafio: o receio institucional e o desconforto que uma voz verdadeiramente autónoma pode gerar no sistema.

O Comité Olímpico Internacional, em vez de ver aqui uma ameaça, tem uma oportunidade única, não para controlar esta evolução, mas para a apoiar; não para falar pelos atletas, mas para criar espaço para que os atletas falem por si próprios e façam o seu caminho.

Isso exigirá, de quem decide, inteligência institucional, visão estratégica e, acima de tudo, coragem. Existem hoje cerca de 100.000 olímpicos vivos em todo o mundo sendo que menos de 10% estão no activo. Representam experiência, conhecimento, diversidade e uma enorme capacidade de influência. Não são um problema para resolver; são uma parte fundamental da solução.

Existem dois obstáculos estruturais que continuam a impedir uma resposta eficaz.

O primeiro é que o sistema olímpico tem sido historicamente liderado por antigos atletas que, ao entrarem no sistema, muitas vezes acabam por se afastar das dificuldades reais que eles próprios viveram, tornando-se parte da manutenção do status quo que anteriormente questionavam.

O segundo é que os atletas têm tido dificuldade em construir uma voz coletiva forte, capaz de defender os seus interesses comuns. A ambição individual, a natureza altamente competitiva do desporto e a falta de solidariedade estruturada têm, demasiadas vezes, impedido uma ação coletiva eficaz.

O primeiro desafio é envolvê-los de forma efetiva na construção do futuro do Movimento Olímpico.

O segundo é explicar aos atletas que hoje estão no ativo que, mais cedo ou mais tarde, o seu momento inevitavelmente chegará. E quando esse dia chegar, quererão seguramente encontrar respostas para questões que hoje ainda parecem distantes.

Porque o verdadeiro legado do Olimpismo não se mede apenas pelas medalhas conquistadas; mede-se pela forma como cuida dos seus atletas durante a carreira, mas sobretudo pela forma como os acompanha depois dela terminar.

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