Demografia: a variável esquecida do rendimento desportivo
Quando analisamos o rendimento desportivo de um país, a discussão centra-se, em Portugal, quase sempre no investimento, mas também nas infraestruturas, nos treinadores ou nos modelos de desenvolvimento de talento. Tudo isso é importante e não necessariamente por aquela ordem, mas existe uma variável estrutural que raramente entra na equação e que condiciona todas as outras: a demografia.
Portugal enfrenta um dos maiores desafios demográficos da Europa. A baixa natalidade, o envelhecimento da população e a saída de centenas de milhares de jovens em idade ativa constituem muito mais do que um problema económico ou social, são também um problema desportivo.
O alto rendimento não começa no alto rendimento. Começa na base de praticantes, na escola, nos clubes e nas primeiras experiências desportivas. É aí que se constrói a base do sistema. Quando essa base encolhe, diminui inevitavelmente o universo de onde poderão surgir futuros atletas de excelência.
A probabilidade de encontrar talento depende também, entre outros fatores, da dimensão da população jovem. Menos crianças significa menos praticantes. Menos praticantes significa menor competitividade interna. Menor competitividade reduz a probabilidade de aparecerem atletas capazes de competir ao mais alto nível internacional.
Mas o desafio português, à semelhança de outros países, não termina na demografia. Existe igualmente um elevado abandono da prática desportiva durante a adolescência. O chamado drop-out faz com que muitos jovens deixem o desporto precisamente na fase em que deveriam consolidar o seu desenvolvimento. Num país já limitado pela dimensão da sua população jovem, perder atletas ao longo do percurso representa um custo muito superior ao registado em países com uma base demográfica mais robusta.
A isto junta-se uma realidade frequentemente ignorada e que está na ordem do dia, o êxodo de jovens qualificados. Quando uma parte significativa da população em idade ativa, cerca de 800 mil jovens, procura oportunidades no estrangeiro, o país perde não apenas profissionais altamente qualificados, mas também potenciais atletas, treinadores, dirigentes, investigadores e famílias que alimentam todo o ecossistema desportivo.
Ao mesmo tempo, Portugal recebeu nos últimos anos mais de 800 mil imigrantes, muitos deles jovens e com filhos que já nasceram ou crescem no nosso país. Esta realidade pode constituir uma oportunidade para reforçar a base de praticantes, desde que seja acompanhada por políticas públicas de integração, educação e acesso ao desporto. O percurso de atletas como Gerson Baldé, Agate de Sousa, Jorge Fonseca, Naide Gomes, Patrícia Mamona ou Nelson Évora demonstra que o talento floresce quando encontra oportunidades e que a diversidade pode ser uma mais-valia para o desporto português.
É evidente que a demografia não determina, por si só, o sucesso desportivo. Se assim fosse, apenas os países mais populosos dominariam o panorama internacional. Existem, felizmente, formas de contrariar parte desta equação. Sistemas eficientes de identificação de talento, uma forte articulação entre escolas e clubes, retenção dos jovens na prática desportiva, investimento em ciência aplicada ao desporto, qualificação dos treinadores e políticas públicas consistentes podem aumentar significativamente a eficiência do sistema.
Mas qualquer estratégia séria deve começar, como diz o catedrático desta área Gustavo Pires, por uma análise objetiva da situação real para definir a situação ideal. Só conhecendo os constrangimentos demográficos, económicos e sociais será possível construir políticas que aproximem o país do modelo de desenvolvimento desportivo que pretende alcançar.
O verdadeiro desenvolvimento não depende apenas do número de medalhas ou de títulos conquistados ou de eventos esporádicos de sucesso. Parafraseando novamente Gustavo Pires, “depende da coerência entre a base de praticantes, a elite e o rendimento”. Quando um destes pilares enfraquece, todo o sistema perde sustentabilidade.
Talvez por isso seja tempo de olharmos para o rendimento desportivo com uma perspetiva mais ampla. O sucesso internacional não depende apenas do que acontece dentro das quatro linhas, das pistas ou das piscinas. Começa muito antes, nas políticas económicas, na capacidade de fixar jovens, na integração de novos portugueses, na qualidade de vida das famílias e na construção de uma sociedade onde mais crianças possam nascer, crescer, praticar desporto e aspirar ao alto rendimento, daí a importância de o desporto não ser um ecossistema estanque e corporativo.
Afinal, o rendimento desportivo não é apenas um reflexo do rendimento dos atletas. É um reflexo do rendimento do próprio país e da capacidade das suas políticas públicas para transformar a realidade demográfica numa oportunidade de desenvolvimento. Entre a situação real e a situação ideal existe um caminho que exige visão, planeamento, avaliação e coragem para decidir. O verdadeiro desenvolvimento depende da coerência entre a base de praticantes, a elite e o rendimento e essa coerência tem de ser também objeto de escrutínio público.