Luís Alves Monteiro
Luís Alves Monteiro Presidente da Associação dos Atletas Olímpicos de Portugal

Por águas nunca dantes navegadas (2) - UAARE, um casamento perfeito!

Boas práticas é uma expressão derivada do inglês 'best practice', que denomina técnicas identificadas como as melhores, para realizar determinada tarefa. Neste segundo episódio de "Por águas nunca dantes navegadas" (1.º episódio AQUI) sinto que é um verdadeiro desafio pela positiva, descrever a magnitude do que ouvi e presenciei na primeira pessoa, o caso de sucesso objecto de descrição neste artigo, tão rico é o material de "estudo" e, acima de tudo, tanta paixão estruturada, num casamento que posso quase chamar de perfeito, já que, para o autor do mesmo, estamos perante uma obra inacabada em melhoria contínua, tal como se encontra nas melhores práticas empresariais. 

Neste artigo, como no anterior, continuo a tentar perceber quem e porquê, no mundo desportivo Português, se aventurou por águas nunca dantes navegadas. Nem de propósito, e mais uma vez em Montemor, encontrei um visionário, o responsável pelo nascimento do Gabinete de Alto Rendimento (GAR) em 2009. Com um mestrado em Ciências da Educação e uma insaciável vontade de aprender e inovar, o Professor Vitor Pardal é um verdadeiro entusiasta, uma raça em extinção, o que os americanos designam por "doer", ou "quem faz". Simples? Não, não é assim tão simples. Fazer acontecer é verdadeiramente difícil e só ao alcance de uns quantos predestinados, os que persistem e movem montanhas.

O Professor Vitor Pardal estudou profundamente o que melhor se fazia a nível mundial nesta matéria, em resultado do seu trabalho de investigação, foi o obreiro da portaria 275/19 que regula o funcionamento das Unidades de Apoio ao Alto Rendimento (UAARE), uma obra prima, um modelo inovador de benchmarking mundial.

Vou tentar nas próximas linhas, com pensamento sistematizado e no meu ponto de vista, apresentar os ingredientes que tornam as UAARE um modelo de sucesso, desde a inovação, passando pelos resultados e também, claro, pelos recursos humanos essenciais e verdadeiramente envolvidos nesta trajetória de sucesso.

Recordo o que escrevi no meu ultimo artigo, e mais uma vez, reitero que o modelo organizacional no desporto não deve ser diferente do modelo empresarial. Aliás, um projecto, um clube, uma federação, para além de ser uma empresa de vida, é uma Empresa no sentido literal, em que o profissionalismo, o compromisso, os resultados, as boas práticas, os praticantes (que são a base do edificío), o alinhamento de todos na mesma estratégia e a sua sustentabilidade e responsabilidade social, estão umbilicalmente ligados aos bons resultados.

As UAARE foram criadas em 2019 pelo DL 275/19, visando uma articulação eficaz entre os agrupamentos de escola, os encarregados de educação, as federações desportivas e seus agentes e os municípios, entre outros interessados, tendo por objetivo conciliar, com sucesso, a atividade escolar com a prática desportiva de alunos/atletas do ensino secundário, enquadrados no regime de alto rendimento, seleções nacionais ou de elevado potencial desportivo.

Mais uma vez, é relativamente fácil encontrar nesta  estrutura tudo o que de bom fazem as melhores corporações. O que há de novidade neste super projecto é que, ao contrário dos gigantes empresarias que têm normalmente práticas alinhadas de "one size fits all", foi criado um modelo flexível com um suporte formal, a legislação,  que plasma e replica o suporte estrutural dado aos atletas. Este é um verdadeiro documento estruturante, que define de uma forma detalhada os direitos e deveres do aluno-atleta mas tanbém dos pais, dos professores, dos técnicos, dos treinadores dos psicólogos, dos clubes e Federações, alinhados e todos parte de uma equipa multidisciplinar que trata o aluno-atleta UAARE como uma pessoa, um atleta e cidadão, numa verdadeira abordagem holística.

Mas para chegar ao modelo actual foi preciso saber definir o problema a resolver.

O Modelo UAARE

O alinhamento de todos os intervenientes baseia-se no compromisso na customização dos planos de estudo e treino, e na flexibilidade dos mesmos, em que se identificam as melhores práticas e casos de sucesso para se poder replicar na rede,  é um forma diferenciadora de abordar o problema

As UARRE utilizam uma metodologia de compromisso e de avaliação contínua, definem os planos de evolução e performance de cada atleta, não enquanto actor isolado mas sim elemento vivo de uma estrutura heterogénia, pai, aluno, professor, treinador, psicólogo, clube, federação, autarquia, num verdadeiro ecossistema para o sucesso, destinado a formar campeões e cidadãos para a vida.

Mas antes de ir aos números e dashboards que revelam o sucesso do projecto - e que espelham bem o que é que o autor, o Professor Victor Pardal entende e define como sucesso -  saliento aqui o que pude presenciar e ouvir. Este projecto teve uma mistura verdadeiramente catalizadora de boas práticas, o tal casamento perfeito. Tem uma missão clara, uma visão de longo prazo, algo que dá muito trabalho porque implica mudanças e rupturas! Como numa empresa – onde tudo o que não se mede não existe -, souberam inicialmente identificar e definir o Problema a resolver, estabeleceram os objectivos, definiram os riscos e oportunidades e apontaram para as metas e, definiram o trabalho a entregar, de uma forma efectiva, com prazos compromisso, resultados e responsabilização de todos os intervenientes.

Em conversa recente com o Senhor Secretário de Estado da Juventude e do Desporto Drº João Paulo Correia, ouvi-o falar sobre este interessante fenómeno, mencionando esta colaboração entre o ministério da Educação e a  sua Secretaria de Estado. E adiantou que mais uma vez, o alinhamento, neste caso os sistemas de educação e desporto a uniram-se para dar uma resposta concreta a uma necessidade historicamente manifestada por Aluno-atleta ao longo de anos. Para tal, a comunidade educativa e desportiva foi mobilizada para um mesmo objetivo, o sucesso escolar e desportivo dos nossos atletas. 

O problema

Hoje em dia, a intensidade dos treinos de um atleta de alto rendimento, as constantes viagens internacionais, as ausências constantes e as dificuldades de conciliação e coordenação entre o mundo académico e escolar, provocam uma alta taxa de insucesso escolar ou desportivo, levando necessáriamente ou ao abandono ou de um ou outro. 

Inovação

Já em 2018, antes da pandemia, as UARRE recorreram ao modelo híbrido, presencial e online, factor chave no processo. Um modelo assente numa plataforma única, colaborativa, com análise de dados em tempo real, projectando correcções e antecipações just in time, utilizando, em colaboração com a Microsoft, a plataforma TEAMS, o que lhe mereceu a atribuição do Prémio Gold Medal AWARD. Trata-se de um estudo de caso a nível mundial, utilizando uma base de dados sólida com a possibilidade de extração de dashboards com cruzamento de milhares de dados para base de análise da e apoio á decisão. Por exemplo, identificam o número de treinos efectuados por género e modalidade, possibilitando previsões e correcções, tudo isto ligado a um smart calendar onde são marcadas todas as intervenções com os alunos -atleta (Aulas, exames, provas)com acesso de toda a equipa multidisciplinar, com um sistema de red flags individuais para evidenciar sobreposições, faltas em época de competição, permitindo as tais decisões de por parte da equipa e direcionamentos sustentados com uma fórmula mágica de antecipação do potencial problema.

Salas de estudo

As salas de estudo, onde assenta o modelo de compromisso e colaboração de todos, é onde as palavras alinhamento, envolvimento e comunicação interna têm maior significado e dimensão. Em sentido inverso ao modelo tradicional de ensino,  e mais uma vez em sintonia com as melhores práticas empresariais focadas na importância dos resultados, os alunos/Atletas frequentam estas salas independentemente da sua localização geográfica (cerca de 10% dos atletas alunos vivem no estrangeiro). Assim o absentismo, parodoxalmente, é uma das verdadeiras razões de sucesso do modelo. Para tal, o modelo on line é muito importante que seja sustentada numa  plataforma tecnológica utilizada por todos, e para que se tenha noçaõ que o absentismo foi transformado numa oportunidade,  foram registradas mais de 60.000 faltas mas que se traduziram face ao modelo de contigência implementado num sucesso académico de 96,9%.

Responsabilidade Social

As UARRE, dentro da filosofia de responsabilidade social que seguem, têm uma missão clara de formar pessoas, com um objectivo que não é só o desportivo e potenciação de resultados. Cerca de 25% destes alunos-atletas alimentam o sonho de se licenciarem, e mesmo tendo em conta os constrangimentos de carácter físico (por exemplo lesões a que os atletas estão sujeitos na carreira desportiva) as UAARE são também uma estrutura sólida de apoio para os problemas do foro mental, preparando-os inclusivé com a implementação da filosofia de responsabilização e compromisso, para se tornarem bons profissionais e profissionais aptos no mercado de trabalho, como bons cidadão com ética e cultura desportiva capazes de contribuir para despertar uma nação!

Recursos Humanos

Este é a alma mater do projecto e do seu visionário, aqui é que assenta o músculo, o coração e a simbiose do mesmo. O corpo docente, em sintonia com o departamento técnico, treinadores, psicólogos e com o apoio dos pais, tutores e os "campeões" (elementos seniores que coordenam e supervisionam este work flow educativo e de treino de alto rendimento), são fundamentais para manter aquilo que podiam ser peças soltas, num puzzle perfeito em que a flexibilidade e customização são chaves. Estranham se disser que o recente fenómeno da Natação Portuguesa, o Campeão Mundial Diogo Ribeiro, de Coimbra, atualmente a estudar em Lisboa numa escola da rede UAARE, a treinar e viver no Centro de Alto Rendimento do Jamor, é um produto desta articulação? Ou que a Tetra Campeã mundial de Ginástica Acrobática Ana Rita Teixeira, estuda no sistema UAARE.

Tal como nas empresas, esta articulação está sustentada num modelo de governance, em que a Direcção Nacional está a cargo do Professor Vitor Pardal como Coordenador Nacional, englobando este Comité, o Director Geral da Educação, um representante da Secretaria de Estado da Juventude e Desporto e o Presidente do Instituto Português da Juventude e Desporto.

A frase de Benjamim Franklin tem aqui expoente e significado máximo: "Tell me and I forget, teach me and I might remember, envolve me and I will learn".

Os números

Com uma base de dados de mais de 725 alunos, de 41 modalidades, abrangendo 23 escolas na rede UAARE, e 3 categorias de atletas - atletas  de nível I com estatuto de alto rendimento ao abrigo do Decreto-Lei n.º 45/2013 alunos-atletas de nível II que integrem seleções nacionais ou outras representações desportivas nacionais, ao, de 5 de abril, alunos-atletas de nível III com potencial talento desportivo. Algumas percentagens que ilustram e definem sucesso, 75% tdestes alunos-atletasêm uma expectativa elevada de concluir um curso, dos quais 38% a escolha recai sobre um curso de Educação Fisica com grau académico superior, 12% opta por medicina e outros 12% por gestão. Este é um modelo de ensino inovador que conseguiu em 2020/2021, em todos os anos de escolaridade, obter resultados acima da média nacional, com um desempenho académico global de 96,9%. Por outro lado o  desempenho desportivo entre julho de 2020 e junho de 2021 traduziu-se em 78 títulos mundiais e europeus, 737 participações em provas internacionais, 721 medalhas em campeonatos nacionais e 613 chamadas a selecções nacionais, com vários recordes nacionais atingidos.

Considerações finais

Por último, e reportando-me a uma conversa com o Secretário de Estado da Juventude e Desporto, Dr.º João Paulo Correia, disse o governante, as UAARE são um casamento perfeito, na medida em que o apoio estrutural que é dado pelas Escolas UAARE ao aluno-atleta, constitui-se como inequívoca mais-valia para toda a comunidade escolar. O exemplo destes alunos-atletas, com muito menor disponibilidade para o lazer e tempos livres e com significativos níveis de aproveitamento escolar, é em si um exemplo para os demais alunos, de que com foco e objetivos definidos, não há impossíveis.

 

As UAARE foram desenhadas para servir o Alto Rendimento, as Seleções Nacionais e jovens talentos desportivos que sejam identificados pelas Federações Desportivas junto das Escolas. São e devem ser um processo contínuo, sendo importante adicionar um novo eixo, já consagrado no Programa de Governo, o do ensino superior. Esta medida segundo o Secretário de Estado é também o mais sólido alicerce para um pós-carreira bem sucedido no futuro. O atleta que conseguiu conciliar as duas carreiras terá uma integração futura no mercado de trabalho muito mais bem sucedida. Retirei outro comentário do Secretário de Estado, que evidencia o alinhamento da tutela com o ministério da educação para este modelo, uma nação que percebe que nenhum jovem talento em Portugal, inserido no sistema escolar de ensino secundário, fica para trás em termos de apoio na conciliação da sua carreira desportiva com a carreira académica, é uma nação que dá dignidade à opção de ser atleta e querer representar o País internacionalmente.

Escrevi este artigo com a maior das paixões e entusiasmo transmitido pelo excelente comunicador que é o Professor Victor Pardal. Era tanta a boa informação  que seguramente pequei por escassez. Num país onde falar em planos estruturantes no desporto e planos estratégicos é considerado por alguns uma blasfémia, espero ter dado a noção da importância desta iniciativa de mérito que se pode e deve enquadrar numa visão holistíca para o desporto, desde a actividade fisica,o desporto escolar, passando pelo ensino secundário, ensino superior e integração no mercado de trabalho no pós carreira.

Nas palavras do criador das UARRE quando diz..."Somos todos UAARE", aceito de "caras" este casamento perfeito e  digo alto e bom som.....EU TAMBÉM SOU UAARE!
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