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Os "feitos" de Fernando Santos

Há quem use e abuse das estatísticas para explicar determinadas situações no mundo do desporto, nomeadamente no futebol. Mas temos também quem considere que os números são apenas isso mesmo. Eu, assumo, continuo a acreditar que se pode "ler" melhor determinados aspectos de um jogo, de um campeonato ou de uma carreira à luz dos números.

Dizem-nos os registos históricos (aqui fazem o papel de números) que, até à data, apenas três homens dirigiram as equipas principais de Benfica, Sporting e FC Porto. Depois do brasileiro Otto Glória e do chileno Fernando Riera, um português atingiu tal desiderato. Falo-vos de Fernando Santos, o actual timoneiro encarnado que, no sábado, sofreu, na Póvoa de Varzim, uma das derrotas mais humilhantes da sua carreira desportiva, sendo que no historial do clube da Luz também este desaire entrou directo para o "top" dos tropeções.

Sei que há muita gente, adepta dos três grandes, que critica tudo e mais alguma coisa que Fernando Santos faz ou decide, argumentando que este não tem engenho suficiente para ocupar postos tão altos. Não entro por aí, pois seria inexplicável que dirigentes de clubes tão distintos, com um mercado tão amplo, conseguissem escolher, num espaço temporal diminuto (inferior a uma década), o mesmo homem para as suas equipas sem que este tivesse qualidade. Ainda por cima, sabendo que a figura em causa não esconde a respectiva paixão clubística.

Não faço ideia dos critérios que levaram à contratação de Santos pelos clubes atrás mencionados, mas quero acreditar que todos os seus "patrões" o viram como exemplo de seriedade, dedicação, empenho e capacidade. Não fora assim e certamente que as opções teriam recaído noutros nomes, provavelmente mais laureados, famosos e bem-vistos juntos dos amantes do pontapé na bola.

Mas se creio no profissionalismo de Fernando Santos e faço questão de relembrar o facto de ser o único técnico português a sentar-se no banco dos grandes cá da terra, também tenho de referir que já conseguiu incluir umas páginas bem cinzentas no seu currículo. Ser eliminado na Taça de Portugal - ao serviço de Benfica, FC Porto ou Sporting - por uma formação de um escalão inferior é mau, mas repetir a experiência nos três emblemas é... maldição ou erros a mais, embora ninguém possa ser directamente responsabilizado pelos erros dos atletas.

Fernando Santos parece-me, efectivamente, um homem sério e trabalhador. Comete deslizes vários como sucede com qualquer técnico mundial (tudo bem, alguns deles, são mesmo estranhos, como é o caso de passar meses a contar com apenas 13 ou 14 jogadores e depois ficar de "mãos a abanar" quando tem de apostar em Betos e companhia...), mas o seu maior problema é não conseguir passar uma imagem de confiança para o exterior. O próprio já admitiu em entrevista a Record que tem um ar sisudo. Eu vou mais longe: quem olhar para o banco logo à passagem dos minutos iniciais fica com a ideia que Santos está preocupado, assustado, ansioso, desesperado. Não deve ser bem assim, mas acredito que esse ar (de que o visado não tem a mínima culpa, claro está) não é o indicado para motivar os jogadores, nomeadamente quando estão a perder. Bem pelo contrário. E se isso até pode passar despercebido num clube com ambições reduzidas, num grande pode ser pecado fatal...
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