Uma e outra vez, a História mostra-nos que não basta ganhar; é preciso também analisar a forma como se ganha. Óscar "Tacuara" Cardozo foi o maior goleador que o Estádio da Luz viu desde Nené e quantas vezes esse mesmo estádio o assobiou pela falta de "nota artística"? Nené, justamente, foi por sua vez o maior goleador encarnado depois de Eusébio – e quantas vezes o terceiro anel o contestou por não sujar os calções?
Fora das quatro linhas, a mesma lógica prevalece: não bastam os resultados; tão ou mais importante é o processo, a forma como se atingem os objetivos.
Nos últimos anos, reinou no Benfica uma forma de atuação focada nos resultados. E a primeira coisa que a Assembleia-Geral Extraordinária de sexta-feira mostrou foi que há um conjunto de sócios muito representativo a quem isso não basta e que está muito preocupado com a forma, com o processo.
Rui Costa que, enquanto jogador, foi um mestre da forma, tinha feito como Presidente tudo ou quase tudo bem até aqui: concluiu o empréstimo obrigacionista com inteiro sucesso, resolveu desequilíbrios da equipa de futebol no mercado, reforçou as modalidades, fez um excelente arranque de temporada, com o acesso à Liga dos Campeões à cabeça dos bons resultados desportivos e financeiros, e logo convocou, como prometera, eleições. Mas cometeu, entretanto, dois erros.
Primeiro erro: ainda não haver resultados, ou sequer uma previsão de quando os possa vir a haver de uma auditoria externa à vida recente do clube.
Segundo erro: não ter logo apresentado, no dia em que a Direção se demitiu e provocou eleições, um regulamento para essas mesmas eleições. O pecado original não é da Direção, é de Pires de Andrade, Presidente da Mesa da Assembleia-Geral, que faz uma leitura dos estatutos em que nenhum jurista o acompanha: a de que a elaboração de um regulamento interno é prerrogativa da Direção e não da Assembleia-Geral, como se fizesse algum sentido, numa sociedade em que manda a separação de poderes, ser o órgão executivo a impor regras ao legislativo e, portanto, por definição, fiscalizador. Mas, perante isto, e em nome do mesmo desejo de transparência, pacificação e união do clube que tem defendido, Rui Costa deveria ter apresentado, prontamente, um regulamento.
Quanto ao que se passou na Assembleia-Geral propriamente dita, notas positivas e notas negativas.
- Nota positiva desde logo para o movimento "Servir o Benfica", que conseguiu que fosse efetivamente realizada a assembleia e viu aprovada a sua proposta de uma auditoria às últimas eleições e fim do voto eletrónico;
- Positiva também para Rui Costa, que ouviu os sócios e falou com os sócios, deixando claro que não se opõem ao fim do voto eletrónico no continente;
- E positiva, é claro, para os sócios, que disseram presente e fizeram ouvir os seus pontos de vista, mesmo perante um Presidente da Mesa da Assembleia-Geral aparentemente muito pouco consciente do que seja o seu lugar, uma Assembleia-Geral e o seu lugar soberano.
- Do lado negativo, a primeira nota vai precisamente para Pires de Andrade, um Presidente da MAG que fica isolado numa leitura disparatada dos estatutos, como posto a nu por Paulo Olavo Cunha, ele mesmo um antigo Presidente da MAG, na melhor intervenção da noite;
- Negativa também para quem ainda acha mesmo que estamos no século XX e que é possível fazer uma reunião de sócios de um clube como o Benfica como se de um jantar de família se tratasse, privado, donde nada devesse transpirar. Admitindo que não passa pela cabeça de ninguém confiscar os telemóveis das pessoas à entrada ou contratar um segurança por cada sócio, não seria melhor assumir que há smartphones e redes sociais, que as pessoas partilham, em tempo real, o que estão a viver, e passar a transmitir as Assembleias-Gerais, em direto, na BTV?
- Por fim, e independentemente de quem seja a responsabilidade, Presidente da MAG ou Direção, o facto é que o Benfica vai para eleições daqui a três semanas e continua sem regulamento eleitoral.
Falta dizer que o voto eletrónico foi o grande pomo da discórdia na base desta AG, mas outra questão, de igual importância, ficou por discutir: o acesso aos cadernos eleitorais. O tema terá de ser debatido em breve e, portanto, talvez haja uma reflexão importante a fazer até lá: ser sócio do Sport Lisboa e Benfica não é matéria de segredo de Estado, mas será mesmo tão virtuoso como parece obrigar a que seja público? Achamos mesmo que toda a gente deve saber que ex-atletas são ou não sócios de um clube, que dirigentes
– até de outros emblemas –, que árbitros, que jornalistas, que políticos, que juízes? Será que o clube e o país têm alguma coisa a ganhar com isso? Ou será que não basta garantir o acesso dos candidatos a um conjunto de informações sobre os sócios, mas sem a revelação da identidade dos mesmos? Isto é: qualquer lista deve ter o mesmo direito do que a Direção a saber quantos sócios existem em Vila Real ou em Beja, quantos votos tem cada um e comunicar diretamente com eles, através de mail ou sms, mas não precisa de saber como se chamam, quem são nem o que fazem.
A terminar, caro leitor, uma nota para que não fiquem dúvidas: pessoalmente, não podia ser mais a favor do voto eletrónico. É óbvio que é o futuro e que carrega inúmeras vantagens que, no entanto, não foram todas usadas nas últimas eleições no Benfica. Dito isto, não existe qualquer indício que sustente a teoria de um ato eleitoral manipulado. Mas também ainda há quem ache que Trump é que ganhou as eleições nos EUA, que a Covid não existe, que a Terra é plana e que isto é tudo uma grande mentira. Cada um acredita no que quer e, como quem não deve não teme e a bem da paz de que o clube precisa, emendou bem a mão Rui Costa: vamos a votos de forma presencial e que ganhe o melhor – o Benfica.
Por Mauro Xavier