Mauro Xavier
Mauro Xavier Gestor

Futebol depois da Covid

Acabou a Covid. É a frase mais ouvida no café por estes dias enquanto a televisão dá monotematicamente notícias da guerra. Mas, nestes tempos em o medo regressou à Europa, podemos até saudar o abrandamento da pandemia, mas sabemos – ou, pelo menos, deveríamos saber – que os seus efeitos estão para durar.

O futebol português, que já não esbanjava saúde, está hoje a braços com uma crise ainda maior, com muitos clubes a atravessarem dificuldades financeiras, com a perda de patrocínios e assistências. A Liga reuniu, mas, à parte os abraços e beijinhos trocados e que até há até bem pouco tempo a DGS e o bom senso desaconselhariam, não se deu, à saída, por uma única ideia sobre como enfrentar a situação.

É pôr os olhos nas recentes prestações internacionais dos nossos ditos "grandes". O futebol nacional está a perder competitividade – e vai continuar a perder se não avançarmos, depressa, com uma agenda para a recuperação pós-Covid. Propostas palpáveis, quero eu dizer. E deixo aqui a primeira: o Benfica propor à FPF e à Liga apresentarem ao Governo a criação de um regime fiscal excecional para os futebolistas sub-23 de qualidade acima da média. Em concreto: descer a taxa de IRS para 20% a todos os que tenham sido internacionais A nos últimos 12 meses pelas respetivas seleções.

Porque é que esta medida é interessante? Por múltiplas razões. O que temos hoje é um regime fiscal que favorece os atletas em fim de carreira. Otamendi, Pepe ou Slimani beneficiam de uma benesse nos impostos ao abrigo de um estatuto especial criado para atrair ex-residentes para o país, após pelo menos cinco anos de ausência.

Mas o que todos pretendemos enquanto adeptos é algo mais: é atrair talento em geral – e não apenas numa determinada faixa etária – e reter talento, o dos nossos atletas que, tantas vezes, lamentamos ver sair cedo de mais.

Uma taxa única de 20% para internacionais abrange tanto jogadores estrangeiros como portugueses e representa uma descida de 33% em relação àquela que é hoje a taxa máxima praticada. Numa liga em que não temos como competir em matéria de orçamentos, visibilidade ou competitividade, a via fiscal pode ser o caminho mais rápido, seguro e eficaz de inverter o cenário e colocar o futebol português no início de um círculo virtuoso.

Menos impostos significa capacidade para reter e atrair melhores jogadores, melhores jogadores significam melhores equipas e melhores equipas significam melhores resultados desportivos e financeiros. Para já não falar do interesse que a vinda de X, Y ou Z sempre despertam nos seus países de origem, abrindo o futebol português a novos mercados para as transmissões televisivas.

Se o futebol é tantas vezes usado por responsáveis políticos e sociedade em geral enquanto bandeira do país, então é necessário que esse mesmo país também seja capaz de o proteger e – para usar um termo da moda – incubar. Já criámos regimes fiscais especiais; porque não para os desportistas de exceção? Começando pelo futebol, mas abrindo o caminho para as demais modalidades.

De resto, menos impostos não significa sequer menos receita fiscal. Quando o Rúben Dias vai para Inglaterra, é receita fiscal que o Estado português perde. De cada vez que perdemos talento, são também menos impostos que arrecadamos. Mais os contribuintes estrangeiros que podemos ter cá ou continuar a ver "contribuir" para os emblemas e cofres espanhóis, ingleses, russos, turcos, árabes, etc.

Finalmente, e não despiciendo: um regime fiscal destes também evitaria, ou pelo menos haveria de reduzir, a quantidade de engenharias e acrobacias financeiras com salários, prémios, direitos de imagem e afins em que somos pródigos e que só desprestigiam ainda mais o futebol português.

Só por si isto não chega, claro. Precisamos de um plano de recuperação a 10 ou 20 anos. Mas é um pontapé de saída para o debate. Venham mais ideias. E, sobretudo, mais ação.

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