Mauro Xavier
Mauro Xavier Gestor

O Campeonato Nacional da 1ª Revisão

Se o futebol português podia viver sem o absurdo? Podia, mas não era a mesma coisa. Finalmente vencida a guerra ao infame "cartão de adepto", já outro moinho de vento se ergue no horizonte, fazendo-se passar por assunto de enorme importância: o misterioso caso dos campeonatos que o Sporting diz que ganhou, mas ninguém viu e que o Porto não diz que venceu, mas não se importa de contabilizar.

Contextualizemos o leitor mais desprevenido. Bruno de Carvalho, lembrou-se, um dia, de que o Sporting não tinha apenas 18 títulos de campeão nacional, mas 22. O número, dizia, resultava da soma de quatro competições de nome "Campeonato de Portugal", ganhas nos idos dos anos 20 e 30 do século passado e que, por razões que a razão desconhece, o mundo – incluindo todas as direções anteriores do Sporting – teria conspirado para não contabilizar no palmarés leonino.

Ora, o que em BdC era apenas coerência, fica mal a Frederico Varandas, que até pôs, imagine-se, o Sporting a ganhar campeonatos a sério.

O Campeonato de Portugal foi a primeira tentativa de organizar uma competição de âmbito "nacional" no futebol português. Estava-se na ressaca do primeiro jogo internacional da Seleção Portuguesa de Futebol, uma derrota por 3-1 contra a Espanha, e havia o sentimento de que, apenas com competições regionais, não íamos lá. O Campeonato de Portugal nasceu assim em 1921/22 e era para ter tido apenas um jogo: um braço-de-ferro entre uma equipa de Lisboa, o Sporting, e outra do Porto, o FCP. Por más condições do terreno escolhido – a sempre neutral Coimbra – lá se decidiu por uma contenda a duas mãos, uma em casa dum, outra na do outro, que os resultados haveriam de levar para um terceiro jogo de desempate.

Foi assim o primeiro "campeonato" que o Sporting agora quer fazer equivaler à competição que hoje conhecemos, com vinte e muitas, 30, 34 ou mesmo 38 jornadas e dez meses de duração.

Nos anos seguintes, foram entrando mais equipas, mas sempre poucas e em sistema de eliminatórias, até a uma final – e nunca no modelo de poule, todas contra todas, como em qualquer verdadeiro "campeonato". Com um pormenor não despiciendo: tendo em conta as paupérrimas condições económicas do Portugal de então, algumas equipas só entravam a meio da competição, como o Marítimo, que obrigava a dispendiosas deslocações aéreas à Madeira, e que por isso, em 1925/1926, entrou apenas a partir das meias-finais, acabando, veja bem, por ganhar a competição.

Sim, o Marítimo também ganhou o Campeonato de Portugal. Mas nunca veio reclamar um título de "campeão nacional". O Olhanense também ganhou, e também nunca veio reclamar-se "campeão". Até o Carcavelinhos, que já nem existe como tal, ganhou, e – pasme-se – nunca reivindicou tal honraria tão estranhamente sonegada pelo tempo. Foi o Sporting. Foi o Sporting que veio dizer que foi campeão e ninguém reparou.

Alberto Miguéns, João Malheiro e outros já têm escrito melhor do que eu sobre este assunto e documentado abundantemente o caso. O "Campeonato de Portugal" não era o antepassado do Campeonato Nacional da 1ª Divisão ou, hoje, da I Liga, mas sim da Taça de Portugal. Está escrito em documentos oficiais da Federação Portuguesa de Futebol, quando as competições nacionais foram reformuladas e deram lugar aos formatos mais ou menos como os conhecemos hoje. E está até testemunhado no troféu original da Taça de Portugal, guardado na sede da Federação, em cuja base constam placas com os nomes de todos os vencedores da competição. Quem é que lá encontramos nas 17 primeiras placas? Os nomes dos vencedores do Campeonato de Portugal.

Os campeonatos da 1ª e da 2ª Liga, em atividade desde 1934/35, é que passaram a designar-se, respetivamente, Campeonato Nacional da 1ª e 2ª Divisão, lê-se no ponto 6 do Relatório e Contas da FPF de 1938/39 e adultos e instituições aceitaram desde então. Qualquer outra leitura é puro revisionismo histórico e desprezo por todos os que nos precederam, de que o Sporting não precisa nem fica bem a clube algum, quanto mais um da sua dimensão.

Quanto muito, se se chegar a esse consenso, que se passe a contar as vitórias nos Campeonatos de Portugal como vitórias na Taça: as quatro de Sporting e Porto, as três de Benfica e Belenenses e as de Marítimo, Olhanense e Carcavelinhos (esta, lamentavelmente, a título póstumo).

Se o Sporting quer mais títulos de campeão, é simples: que jogue à bola e os ganhe no campo. Já temos visto muitos clubes ganharem 7, 8 e mesmo 10 minutos depois dos 90 – mas 100 anos depois, é um bocado exagero.
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