Mauro Xavier
Mauro Xavier Gestor

Um Presidente em fase de adaptação

Cumpridos os primeiros três meses de mandato e tendo só o último desses meses durado anos a passar, Rui Costa deu ontem uma longa entrevista ao canal de televisão do Benfica. E tal como a principal equipa de futebol gosta de atacar na segunda parte para a "baliza grande", também o Presidente pareceu, francamente, mais à vontade na segunda parte da entrevista.

E de que se falou nessa segunda parte? De futuro. Do empolgante anúncio de uma cidade do Benfica. Da ideia simples, mas brilhante de abrir os pavilhões aos sócios. Dos projetos em marcha para a renovação do Estádio. Do objetivo declarado e clarificado de reduzir o plantel e deixar mais espaço para a ascensão de jovens da formação.

Falou ainda da decisão importante de o Presidente não se ter envolvido diretamente na revisão dos estatutos, entregando-a a uma comissão abrangente, porque os estatutos do Benfica não são um documento para esta ou qualquer outra direção, mas para o futuro do clube.

Rui Costa esteve bem ainda nos apelos à união, na confiança e nos incentivos ao grupo de trabalho e no sublinhar do papel desempenhado pelo Benfica no fim da aberração do cartão de adepto. Não disse – e talvez devesse ter dito – uma palavra sobre as arbitragens.

Então, qual foi o problema? O problema foi a primeira parte. E o problema dentro do problema é que essa primeira parte não incidiu sobre planos e intenções; incidiu sobre factos. Sobre o que aconteceu nestes últimos três meses. E aí o que vimos foi um Presidente que, em vez de liderar, pareceu ter andado sempre a reboque dos acontecimentos. A reboque do Ministério Público na questão da auditoria. A reboque do treinador na questão do Flamengo. A reboque de John Textor na questão do investidor.

Vejamos. Ficámos ontem, finalmente, a conhecer o âmbito da auditoria forense ao clube: incidia apenas sobre os três primeiros negócios em investigação na justiça. Agora, foi aberta aos 55 negócios em investigação pelo Ministério Público. Mas o Benfica não pode andar atrás do Ministério Público; tem de andar à frente. Presidente do Benfica coloca-se demasiado a jeito para os acontecimentos. Não se põe em causa se teve responsabilidade direta em negócios que possam ter lesado o Benfica, mas é preciso perceber se houve realmente negócios que lesaram o Benfica – não porque o Ministério Público esteja a investigar, mas pela honra, pela defesa e pelo futuro do clube. E é claro que o Benfica tem de se constituir como assistente no processo, independentemente de não ter encontrado situações que lesassem o clube nos três primeiros negócios. Tem de se constituir assistente porque tem de acompanhar um processo muito vasto, onde há indícios muito consideráveis de que o clube possa ter sido lesado em algum momento.

No tema do treinador, um Presidente do Benfica tinha de ter tomado uma posição inequívoca em relação ao Flamengo ao primeiro sinal de abordagem a Jesus; não ficar a ver no que ia dar a novela. E quanto à saída de JJ, talvez a amizade entre ambos lhe tenha toldado a visão. Mas, desde a derrota com o Sporting que não havia condições para Jesus continuar.

Quanto a John Textor, não é o Benfica que tem de analisar o que ele propõe; o Benfica tem de definir o que quer. Definir um plano, um projeto, o que pretende de um investidor. Depois é que vê se esse investidor cumpre com o se pretende, chame-se ele John Textor ou Manuel Joaquim.

Domingos Soares de Oliveira é outro Jorge Jesus: independentemente do sucesso que possa ter tido, não lhe sobra mais margem de erro. Esgotou o seu tempo no Benfica.

Quanto a Veríssimo, ou é um treinador de futuro ou de transição. O Presidente do Benfica não pode ficar a meio da ponte num tema como este. Tem de ter uma aposta.

E, finalmente, o Benfica não pode permitir que Pires de Andrade, que andou a adiar e empatar Assembleias Gerais, entre para a SAD. Tem de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para o evitar, incluindo comprar as ações de José António dos Santos.

Em suma: Rui Costa é um Presidente em fase de adaptação. Parece ter o potencial, mas precisar de tempo. Como o jogador que chega agora à equipa, ele tem de conhecer os cantos à casa (como admitiu que ainda teve de fazer nestes primeiros meses) e perceber o que o grupo precisa que ele faça. Mas Rui Costa não chegou agora ao futebol português – não pode precisar desse tipo de "adaptação". Não se pode assustar com a pressão dos media e, muito menos, embarcar em cruzadas contra moinhos de vento da comunicação social. Tem de liderar a agenda; não basta a boa vontade. E tem de saber que não chega ser "benfiquista ferrenho" e "sofrer" para ser treinador, diretor desportivo e muito menos Presidente – para isso, estava lá qualquer um de nós só pelo que sofremos em Dezembro. Não lhes exigimos sofrimento; exigimos competência. Espero que como em campo, agora de fato e gravata, nos faça alcançar as vitórias que todos sonhamos.
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