Mauro Xavier
Mauro Xavier Gestor

VAR: onde traçar a linha entre emoção e verdade desportiva?

O VAR estragou-nos os golos. O júbilo da bola sacudindo as redes adversárias, aquele instante mágico em que saltávamos da cadeira, ficou contaminado pelo medo.

Já não sabemos celebrar. Devemos festejar loucamente, assustar a vizinha de cima com urros de alegria e correr o risco de levar com a desilusão do anulamento? Ou esperar como eunucos, indiferentes ao facto de a nossa equipa ter acabado de fazer um golaço bíblico, na cara do rival, no jogo do título? 

O que é o futebol, afinal? Paixão ou ciência? E nós quem somos? Adeptos, ou monges zen da bola, que esperam placidamente que o árbitro comunique de forma assética o que se decidiu no posto de comando do VAR, para então erguer, timidamente, um punho ou encolher os ombros e prosseguir, como se fossemos meros funcionários da emoção?

O VAR – fique claro – veio melhorar em muito a verdade desportiva. O número de erros graves caiu drasticamente. Não podemos nem queremos voltar atrás, ao tempo em que não existia; mas, para cumprir a sua promessa de objetividade, precisa de ser melhorado. É que o VAR continua a ser humano, demasiado humano, e onde há intervenção humana, há possibilidade de erro. Só que, antes, aceitávamo-lo melhor porque o árbitro tinha de decidir na hora e podia não estar sequer na melhor posição para o fazer; agora, é mais difícil entender uma falha quando se levou uma eternidade a decidir, viu e reviu o lance de todos os ângulos e mais algum, bem sentado no conforto de uma régie na cidade do futebol ou onde quer que seja – e quando, entretanto, se deixou o estádio minutos sem fim em suspenso e se matou todo o clima do jogo que crescemos a ver e a amar.

Então, onde e como podemos melhorar o VAR e, com isso, melhorar o futebol?

O VAR continua a errar, particularmente na questão do fora-de-jogo, por duas razões. Um: porque a linha sobre a parte ativa supostamente mais adiantada do corpo do jogador não é traçada por uma máquina, mas pelo operador, em consenso com o vídeo-árbitro. E essa linha pode passar encostada aos dedos do pé ou sobre eles, ou no peito ou já quase no ombro, etc, etc, etc. E dois: porque, ao contrário do que se quer fazer crer, o momento escolhido para parar a imagem também é uma decisão humana e não completamente objetiva.

Mesmo as câmaras mais modernas não filmam a mais do que 50 frames por segundo. Na prática, isto significa que tiram uma fotografia a cada 0,02 segundos. A sequência rápida das imagens produz, ao olho humano, a sensação do movimento, mas o problema começa quando se quer identificar, com precisão cirúrgica, o instante em que é feito o último passe. Em que frame foi? Num, a bola parece ainda não ter tocado o pé do jogador; no seguinte, já toca totalmente… O operador, em princípio, vai escolher o segundo frame, mas o mais certo é que o passe tenha ocorrido algures entre um e outro.

Parece picuinhice? Em alta competição, as pequenas variáveis fazem toda a diferença. A questão já foi estudada em Inglaterra: se o jogador se movimentar a 35 km/hora, a margem de erro entre a escolha de um frame ou de outro pode resultar numa diferença tão grande como 38 centímetros. E sabemos como se anda a anular golos por dois e três centímetros… Até os radares da polícia têm uma margem de tolerância; não deveria haver uma para o VAR? Ou queremos transformar o futebol num arremedo de ciência exata?

Aguardamos, por isso, com expectativa as conclusões que a FIFA vai tirar da experiência da Taça das Nações Árabes. A competição foi o primeiro balão de ensaio do novo VAR semiautomático. O sistema baseia-se num conjunto de novas tecnologias, basicamente assentes em câmaras com sensores de movimento que transmitem a informação a um software equipado com inteligência artificial, que vai continuamente gerando um mapa 3D do posicionamento da bola e dos jogadores. A intervenção humana é reduzida ao mínimo, basicamente à decisão do VAR sobre se a linha e o instante do passe propostos pela máquina estão ou não corretos (daí que lhe chamem apenas "semiautomático"). Se as conclusões forem positivas, o sistema será adotado já a partir do Mundial do Qatar. E significará a redução do erro a quase zero no fora-de-jogo, e talvez mais importante ainda: do tempo de espera. A decisão será tomada de forma imediata, quase tão rapidamente como quando não havia VAR.

Esperemos que o futebol português aprenda com os bons exemplos e evolua depressa para este entendimento da margem de erro e implemente as mesmas regras que em Inglaterra já na segunda volta.

Se tudo correr bem, um dia destes nem nos lembraremos de que o VAR está lá. E vamos recuperar a alegria do golo – para desgraça da vizinha.
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