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O futebol está cada vez mais condicionado pelos números, mas a velha máxima de que no futebol “tudo pode acontecer” não chega para explicar porque é que o Benfica tem hoje, uma hipótese "real" de bater o Real Madrid.
Quando se olha para a presente época, percebe-se que não estamos a falar com base na fé, no ambiente do "Inferno da Luz" ou na mística europeia encarnada. Efectivamente no actual contexto competitivo as probabilidades encarnadas deixam de ser residuais e passam a ser racionalmente defensáveis.
O ponto de partida é o peso do adversário. O Real Madrid apresenta números de candidato a tudo: cerca de 2,21 golos marcados por jogo na liga doméstica, liderança, e uma aura que a acompanha, por pior que jogue parece que mais cedo ou mais tarde acabará por vencer a partida. No entanto, por detrás da posição na tabela da La Liga, aqui estão eles a disputar o playoff da Champions, e isso talvez se explique identificando uma fissura estatística importante na performance dos "blancos". A equipa espanhola sofre, em média, apenas 0,79 golos por partida, mas concede perto de 1,13 golos esperados contra (xG contra) por jogo. Isto diz muito. O Real permite volume e qualidade de ocasiões suficientes para, num cenário “normal”, sofrer mais do que realmente sofre. Ou porque o guarda-redes tem um desempenho acima da média, ou porque a sorte jogou a seu favor, ou porque o Real parece ter um eterno pacto com o Diabo. Mas quando a casa dos "diabos vermelhos" é a Luz... Para o Benfica, isto significa uma coisa simples: o Real é mais permeável do que parece. E é precisamente nesse ponto que pode entrar Pavlidis. O avançado grego chega a este com números de ponta de lança de elite, em 22 jogos da Liga Portugal 2025/26, está diretamente envolvido em mais de um golo por encontro. Podem dizer que entretanto não estará no seu pico de forma, ou que não é um finalizador de área puro. Mas é exactamente neste um ponto que reside a sua mais valia para o jogo desta noite, é um avançado de apoios, capaz de baixar linhas, ligar jogo e arrastar defesas para fora das suas zonas de conforto. Frente a uma linha madrilena que vive de centrais agressivos na antecipação e laterais muito projetados, um 9 com esta capacidade para atacar o espaço entre central e lateral, e para transformar poucas toques em oportunidades de golo, torna-se numa ameaça estrutural anunciada para o modelo de jogo do Real. É que o Benfica, por seu lado, construiu na Luz uma fortaleza com base em métricas que dialogam bem com as fragilidades madrilenas. Em casa, soma algo em torno de mais de 2 golos marcados por jogo no campeonato, com uma média recente na ordem dos 2,20 golos marcados e apenas cerca de 0,80 golos sofridos. E não falo só do volume de golos, o que aqui interessa é o padrão: uma tendência clara para marcar em ambos os tempos, mantendo pressão ofensiva até tarde nas partidas (algo que ganhou indiscutivelmente com a liderança de Mourinho). Esta competitividade ao longo dos 90 minutos cruza-se com outro traço estatístico do Real: a equipa espanhola concede mais espaços e mais ocasiões nas segundas partes, precisamente quando a gestão de esforço, as substituições e a resiliência mental começam a pesar.
Se ligarmos estes pontos, o quadro muda ligeiramente de cor. De um lado, uma equipa que, fora de portas, continua a marcar com regularidade, mas que defensivamente vive acima dos xG (expected goals) e sofre mais nas segundas metades. Do outro, um Benfica que na Luz marca com frequência, cria ocasiões suficientes para chegar, em muitos jogos, com facilidade, à zona dos 1,0–1,5 xG, e que dispõe de avançados que capitalizam essas oportunidades. Em linguagem simples: há uma probabilidade real de o Benfica marcar pelo menos um golo, e não é absurdo projectar mais, sobretudo se o jogo abrir após um golo inaugural dos jogadores da casa.
Na teoria das probabilidades, se simulássemos este jogo 100 vezes, o Real Madrid continuaria a ser a equipa que venceria mais jogos. Mas a fração de vitórias encarnadas não seria insignificante, deixando de viver apenas do acaso do “dia perfeito”.
Os números empurram o cenário de triunfo benfiquista para o território do plausível: um estádio onde o Benfica marca mais do que sofre, um adversário que concede mais do que aparenta e pontas de lança que convertem acima da média das oportunidades que dispõem.
O Benfica pode fazer tombar o colosso espanhol na Luz. Não é romantismo nem devaneio: é aceitar que a estatística também sabe reconhecer quando o favorito está um pouco mais perto da derrota do do que o seu estatuto sugere.
Por Nuno Félix