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Nuno Félix
Nuno Félix Scout internacional

FIFA fora-de-jogo: a urgência da Lei Wenger

O futebol está a perder-se entre linhas. Não entre as linhas do tabuleiro tático do "Mister", nem das marcações do campo da grande ou da pequena área, mas naquelas, que não vês da bancada mas apenas passados uns minutos no sofá da sala. Fluorescentes, de todas as cores, mas sempre virtuais e implacáveis, e que hoje decidem títulos pela comprimento de um piton.

Há qualquer coisa de profundamente errado num jogo em que um golo explode nas bancadas… apenas para ser apagado por um atacador mal apertado, por uma diferença invisível a olho nu, obvia apenas à frieza de um software.

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A lei do fora de jogo nasceu para punir a preguiça, não para castigar a ousadia. Era uma ideia simples: impedir o “jogar à mama”, garantir equilíbrio entre ataque e defesa, proteger a verdade competitiva. 

Hoje, esta norma está pervertida pela combinação entre uma redacção jornalística literalista e uma tecnologia capaz de congelar cada articulação na busca do frame exacto do momento do passe. Debaixo da lupa da televisão esta lei tornou-se um monstro burocrático que devora o que o futebol tem de mais sagrado: a celebração espontânea.

Arsène Wenger percebeu isto. Ao propor que só haja fora de jogo quando houver “daylight”, um espaço visível entre avançado e defesa, o ex-técnico francês não está a reinventar um novo desporto; está a tentar devolver o jogo à sua humanidade. 

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A regra passa a ser muito mais simples: se qualquer parte do corpo do avançado estiver alinhada com o penúltimo defensor, o lance é legal. Não é uma revolução teórica, é um acto de higiene: afastar o VAR da obsessão milimétrica e recolocá-lo no seu lugar natural, o da correcção do erro claro.

Os defensores do status quo agarram-se à precisão da máquina como se a exactidão fosse sinónimo de justiça. Não é. Justiça, no futebol, é acessibilidade e proporcionalidade! 

Quando precisas de dois minutos, oito câmaras e uma animação 3D para descobrir que a ponta do pé do extremo está um nadinha à frente da penca do central, já não estás a repor verdade nenhuma, estás a subverter o jogo em nome de uma pureza laboratorial que não existe nas bancadas, nem no relvado, nem na memória afectiva de quem ama o desporto.

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Cada golo anulado por centímetros é uma traição ao futebol! Ao avançado que arrisca definir no limite, aos adeptos que explodem em alegria ou frustração para logo serem mandados sentar... É o próprio espírito do jogo, que sempre aceitou a margem de erro como parte da sua beleza trágica, que é atraiçoado. 

A tecnologia, usada assim, não pacifica: radicaliza. Alimenta teorias da conspiração, aumenta a distância entre quem decide e quem sofre com a decisão, instala a sensação de que o futebol se tornou um exercício de peritagem e não num espectáculo de emoção.

Por tudo isto a proposta de Wenger é urgente. Não para agradar aos românticos, mas para salvar o futebol de se tornar irreconhecível. 

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A “lei Wenger” devolve o benefício da dúvida ao ataque, simplifica a vida aos árbitros, reduz o poder corrosivo dos "foras de jogo ao milímetro" e reconcilia a regra com aquilo que a televisão, o adepto e o jogador conseguem realmente ver.

Chegados aqui, não chega fazer experiências em competições periféricas, como a liga canadiana, empurrando este dossiê com a barriga para mais um ciclo de reuniões. 

A verdadeira linha que hoje importa é outra: a que separa um futebol ainda assim humano de um futebol tecnocrático, onde tudo é medido.

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A lei do fora de jogo não pode continuar a ser propriedade privada da geometria. Precisa de voltar a ser compreensível, intuitiva, justa à escala do olho humano. É isso que Wenger nos  oferece. 

Não é apenas uma ideia interessante: é uma urgência competitiva, emocional e ética!

Ou o International Board da FIFA muda a lei, e rapidamente, ou arrisca-se a ver a sua própria credibilidade minada… por sucessivos foras de jogo milimétricos decididos a centenas de quilómetros dos estádios e por computadores. 

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O futebol não foi criado para se transformar no que tem vindo a acontecer e a alteração da lei do fora de jogo, por muitos impactos tácticos e comportamentais que certamente terá, será um passo essencial para a preservação do futebol como o "beautiful game".    

Por Nuno Félix
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