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Nuno Félix
Nuno Félix Scout internacional

O Benfica não precisa de extremos para ganhar

O futebol portugês está cheio de ideias feitas que aparecem e depois... persistem. No "futebol como na vida" acontece recorrentemente procurarem-se respostas fáceis para problemas complexos, o que faz imenso sentido para quem tenha menor capacidade para analisar cenários contra-intuitivos. Uma dessas sacro-santas "certezas" é a de que as equipas ditas dos 3 grandes, como o é o Benfica, só podem ser verdadeiramente dominantes, se jogarem com extremos puros, colados à linha, a dar largura ao ataque e a esticar o jogo até à linha de baliza do adversário.  

Parece lógico, não é? Mas o que dizer quando a realidade desmente essa premissa?! 

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O melhor Benfica desta época surge precisamente quando abandonou esse dogma, muito por via acidental, fruto da lesão do Lukebakio, e passou a privilegiar um modelo mais interior, mais combinativo e mais fluido no processo ofensivo, mas também mais coeso e efectivo no momento de pressão ao jogo do adversário.

Os números ajudam a explicar o fenómeno: nos últimos jogos, o Benfica aumentou de forma clara a produção ofensiva entrelinhas, melhorou a eficácia no último passe e passou a criar mais situações de finalização dentro da área. A equipa beneficia de ter mais jogadores por dentro, médios, avançados móveis e laterais projetados, que asseguram superioridade constante no corredor central, aquele onde, estatisticamente, se decidem mais de 70% dos golos nas grandes ligas europeias.

E se formos a ver bem, este não é um fenómeno recente, ou que tenha sido obra do génio de Mourinho. Roger Schmidt na sua primeira versão de Benfica, também preferiu "inventar", com imenso sucesso diga-se, um João Mário a extremo-esquerdo, e a utilidade que mais viu na rapidez de Rafa, foi metê-lo a romper a zona central no apoio direto ao ponta de lança. Comparando ao dia de hoje jogadores absurdamente distintos, um pouco à imagem do papel desempenhado ultimamente por Barreiros.

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Com este modelo, o Benfica ganha controle, junta setores, recupera mais rápido e esconde fragilidades que ficavam expostas quando jogava mais focado na "abertura" para os extremos. A conclusão táctica a que podemos chegar, é que a ausência de extremos puros não reduz largura: redefine-a. É dada pelos laterais, que passam a surgir no timing certo, alimentados por um jogo interior mais rico e imprevisível, também pelas dinâmicas que permitem a Richard Rios dar outra amplitude ao seu jogo, finalmente emprestando à equipa todo o fulgor da sua capacidade de transporte de bola e de ataque aos espaços.

Mais do que precisar de extremos, o Benfica precisava de ideias. E quando as encontrou, libertou os jogadores para um futebol mais maduro, mais dominante e, sobretudo, mais eficaz. A melhor versão da equipa prova que a identidade não está nas posições, mas nas dinâmicas. E, neste momento, as dinâmicas do Benfica vivem melhor sem a rigidez da procura de extremos tradicionais.

Por Nuno Félix
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