Nuno Félix

Nuno Félix Scout internacional

Voar como Rui Pedro entre os centrais

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Este miúdo não mente. Tivesse sido escrita no domingo à noite, a letra de Carlos Tê para a música de Rui Veloso deixaria o inesquecível Mário Jardel no banco.

Sim, é verdade, Rui Pedro nasceu para marcar golos, não é novidade, e logo a magia que aconteceu no Dragão também não surpreendeu quem acompanha há mais tempo a formação do FC Porto.

Quando o n.º 59 entrou em campo contra o Sp. Braga para desatar a teia que Marafona havia tecido bem ali defronte da claque Super Dragões, não era mais o avançado elegante dos juvenis de FC Porto, o finalizador de estilo minimalista que derramava classe a cada execução eficiente que dava quase sempre em golo. Já não é apenas um assassino silencioso, ou não fosse ele o matador que incendiou a massa associativa do seu clube de sempre e na sua estreia para jogos da Liga, para mais num golo marcado perante o tribunal do topo sul, e quando já passavam 5 minutos além da hora.

Dizem os místeres, normalmente após os infortúnios, que "no futebol é preciso ter sorte". Pois assim é, e como na vida, mas a sorte dá muito trabalho.

A sua perceção espácio-temporal ao iniciar, executar e finalizar a ação fundamental do jogo, e que salvou a sua equipa de mais um resultado que por acumulação pesaria da pior forma e muito mais do que qualquer dos anteriores, não foi menos que perfeita.

Assim que Diogo Jota recebe a bola com dificuldade e de costas para o sentido do jogo atacante portista já o avançado balanceia o corpo para o sprint na profundidade que lhe dará a vantagem sobre os centrais para chegar ao passe acrobático que acaba por sair, fruto também do instinto e de uma magnífica visão periférica do avançado emprestado pelo Atlético de Madrid.

Tudo o que se segue é perfeição feita de talento e de muito trabalho. Rui Pedro é hoje um jogador poderoso que passeia orgulhosamente um corpo bem trabalhado para posição e que lhe permite ter superado, com distinção, o teste da passagem dos escalões de formação para a equipa principal e a aclamação que se viu e ouviu no domingo à noite.

O golo que marcou é quase uma assinatura do seu autor, boa colocação posicional entre a linha dos centrais e suficientemente distante dos médios defensivos mais próximos, posição do dorso a indiciar a prontidão para a exploração da capacidade de explosão que sabe ter.

Está de frente para a baliza sem nunca virar costas à fonte da possível assistência, demonstrando uma ligação perfeita ao preciso momento do jogo, excecional tempo de resposta à solicitação do passe (algo que se tem ou não se tem, e que dificilmente se aprende), boa velocidade sem perda de qualquer coordenação motora, encontro com a bola de execução técnica perfeita, com o seu melhor pé e orientado logo para o que virá no passo seguinte, numa automação enquadrada com as condições específicas da velocidade da bola, da corrida, do relvado, do movimento de mancha do guarda-redes que o avançado de área nem precisa de olhar para saber que está lá.

Esta finalização, como não hesitou em executá-la, é um gesto natural próprio de craque, que só arrisca quem sabe, e sabe que sabe. O golo em si é apenas um epílogo de todo um movimento e execução que em nada fica a dever aos que vimos marcar de azul e branco Radamel Falcão ou Lisandro López. Um perfeito 'text book moment'.

Ficam, no entanto, a faltar nesta assinatura do autor outras características. A extraordinária capacidade deste destro para executar todas as ações técnicas com bola com o pé canhoto, mesmo sob pressão dos defesas, é capaz de o fazer em exclusivo, na receção, na condução, no remate ou em coordenação com o seu pé preferencial numa sintonia de opções técnicas essenciais a um jogador de área moderno.

Também importa realçar uma muito boa execução do cabeceamento ofensivo que apenas é traída por uma capacidade de impulsão mediana. Assim como um perfeito entendimento da posição 9, na capacidade que tem para jogar em apoios curtos, segurar jogo e distribuir com critério. Igualmente, demonstra maturidade na escolha dos momentos em que procura a profundidade nas costas dos opositores diretos.

Não sendo um velocista, é um jogador que apenas pela forma como corre denuncia os seus instintos de, com toda a naturalidade que o seu futebol ainda mantém, querer 'fazer mal' à equipa adversária. Ele quer a bola no fundo da baliza mais do que qualquer outra coisa no jogo.

É ainda jovem, falta-lhe o calo para aguentar 90 minutos entre os profissionais com a mesma constância de performance, como aliás se verificou nos jogos que fez pela equipa B já durante esta época. Lê bem os adversários, mas deixa-se ler também pelos centrais mais experientes, permitindo um certo encaixe que o prende à marcação e não o liberta para movimentos de rutura que o ponham na cara do golo nas melhores condições.

Não sendo para já uma opção segura para o onze inicial, seria pois um crime que tamanho potencial não estivesse a partir de agora ao serviço das estratégia do treinador da equipa principal dos dragões.

Aliás, este golo, bem como toda a exibição de domingo, trouxeram à luz dos holofotes as inevitáveis comparações com a outra joia fruto da formação do FC Porto, André Silva, supostamente dois jogadores similares para a mesma posição. Essa é uma avaliação que podemos deixar para outra oportunidade.

Os grandes jogadores, assim como os grandes treinadores, definem-se nos grandes momentos. Para Rui Pedro e para Nuno Espírito Santo, aqueles últimos minutos contra o Sp Braga bem que poderiam ser os últimos minutos de uma final da Champions. Aqui temos que dizer 'chapeau' para um treinador que, sabendo com quem trabalha, sabe o diamante que tem para lapidar mas não desconfia da sua dureza para aguentar a pressão do momento. A entrada de Rui Pedro não foi uma decisão desesperada, a entrada no jogo da paixão que este jovem jogador trazia consigo, foi a ventania que derrubou uma muralha bracarense em sofrimento.

Não há aqui qualquer etapa queimada ou risco dos efeitos nefastos de uma glória precoce que afastaram outros promissores avançados de carreiras mais ricas, como Pepa ou João Peixe.

O treinador do Porto encontrou uma excelente opção para o ataque, tem que assumi-lo plenamente, e terá em Rui Pedro um jovem que tem em si todos os sonhos do Mundo. Sabemos bem como necessita o Estádio do Dragão de mais ilusão.

Portugal, que sofreu, durante tantos anos, com a carência de homens-golo, tem num futuro próximo várias e extraordinárias opções, curiosamente, ou nem por isso, de uma mesma safra 98/99, ou não fosse Rui Pedro apenas mosqueteiro portista de uma trindade de jovens pontas de lança de elevadíssimo potencial, cada qual a jogar no seu 'grande'...

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