Olho no jogador

Nuno Félix
Nuno Félix Scout internacional

João Carvalho: melhor ainda do que Renato Sanches

Jogadores que nos dão a alegria de uma vida, jogadores que definem campeonatos. Golos de que não se esquece, sejam a 30 metros da baliza, plenos de vontade e rebeldia, seja a sentar o patrão da defesa adversária e a definir como quem fuzila 50.000 adeptos de um só tiro. Assinaturas que distinguem e unem miúdos da classe de 97, alfacinhas nascidos, no Seixal formados, ambos médios, ambos predestinados e no entanto... um já campeão da Europa, a jogar no clube mais rico do planeta, e o outro ainda em fase de afirmação num dos plantéis mais baratos da primeira Liga.

Se todas as comparações correm sempre o risco da injustiça, esta é uma comparação que ambos entendem como um elogio e à qual estão desde os 12 anos de idade habituados.

Da bancada podemos avaliar melhor o mérito da decisão, o impacto do jogador no jogo, a correção do posicionamento ou até o profissionalismo com que o jogador encara todos os momentos da partida. Mas é lá dentro que os jogadores se reconhecem nas suas virtudes e limitações técnicas. Quem partilha dos mesmos metros com a mesma bola a rolar, sabe quem é que a trata melhor. Não que seja impossível percecionar a correção técnica do jogador do exterior do campo de jogo, mas lá dentro quem recebe uma bola passada com aquela conta, momento/trajetória/força, vinda de uma bota que quase nem sequer silvou ao tocar o esférico, e tudo com aquela facilidade de quem respira, sabe quem é efetivamente o craque. E a bola sempre gostou mais do João.

Os jogadores não são todos iguais, muito menos o são antes de estarem formados e desenvolvido todo o seu potencial. Há predestinados que aparecem logo aos 16 mas também os há de colheita tardia.

Num mundo cada vez mais rápido, já não falta muito para termos empresários na sala de espera das maternidades. Até parece que um miúdo de 19 anos tem a obrigação de ser titular de um Bayern, ou que um talento de 20 não pode mostrar aqui e ali que ainda lhe falta aquela massa para ir à carga, ou que ainda lhe sobeja uma dose extra de convencimento para, num pormenor de individualismo a despropósito, cobrar a abnegação e sentido do colectivo que demonstrou no momento anterior.

Dificilmente encontraremos jogadores mais audaciosos do que estes dois. Eles conhecem-se a si mesmos com a bola melhor do que ninguém e assim sendo conhecem o essencial do jogo. No fim, os melhores 11 prevalecerão, mas até lá, há que convencer os restantes 10 de que 1 é essencial para o coletivo porque sozinho pode fazer a diferença. É deste tipo de arrogância e de audácia que buscam os olheiros de todos os clubes com verdadeiras ambições.

A determinante genética pode ser fatal na maior parte das modalidades mas não no futebol, o desporto mais democrático que alguma vez se inventou. Mas não podemos negar que os biótipos interessam muito, infelizmente cada vez mais, num desporto de explosão e resistência, de contacto e onde a intimidação também desempenha um papel determinante na forma como condiciona a interação do jogador quer com os adversários, quer com os próprios colegas de equipa.

Quando vamos para a guerra queremos saber quem está lá para nós. Renato era daqueles que, por via das dúvidas, entrava a virar e estava apresentado. Isso, e uma certa tendência para adquirir facilmente mais massa corporal, faziam dele um jogador que ganhou a explosividade e o à vontade competitivo ao espaço sempre muito disputado do meio do campo. Esse estatuto de jogador dotado mas confortável e dominante no contacto físico foi o que lhe permitiu exprimir-se em toda a sua capacidade arriscando coisas verdadeiramente especiais, seja no transporte de bola, seja no remate, seja na recuperação defensiva. Renato Sanches, como que a ameaçar ser gato, com aquele corpo robusto, quase não sofreu com a passagem para os seniores com 18 anos ainda por completar.

Já João Carvalho não foi igualmente abençoado por uma natureza de outro continente. Obviamente competitivo, que não gosta de perder e que responde sempre ao desafio, sabe-la toda e que não se intimida, pois qualquer sinal de fraqueza é a morte do mais verdadeiro artista. Das fraquezas faz as suas forças e vai para cima do adversário, que mais não seja porque ao fim dos 90 minutos terá de ficar ele a sair a ganhar seja qual for o jogo que ele dentro do próprio jogo, esteja a jogar. Mesmo que o placard o desminta, o adversário tem de sair vergado à sua superioridade técnica, à sua vontade de vencer.

Ao fim de 2 anos entre os profissionais, parece estar a convencer que afinal não está limitado a jogar longe das marcações mais apertadas ,ou numa posição à qual pouca gente dá uso em Portugal, a do clássico número 10 que ele nasceu para ser.

João Carvalho sofreu ao longo do seu percurso com o desequilíbrio aparente entre a sua vocação e a sua aptidão. Entre a clara tendência para romper em transporte, sem evitar obstáculos ou dificuldades, e a incapacidade de equiparar o desafio físico que os adversários lhe apresentavam. Mas isso agora é só conversa.

Na verdade, João Carvalho é até 5 meses mais velho do que Renato Sanches, mas só agora os mais distraídos estão apresentados a um jogador que tecnicamente é superior ao 35 do Bayern.

Ambos jogadores muito impactantes no jogo, um de forma mais óbvia, outro de forma mais distinta. João Carvalho, tal como Renato, foi experimentado em praticamente todas as posições do meio campo para a frente, e na equipa B da Luz até lhe assentou o papel de regista a lançar a primeira fase de construção da equipa, fazendo uso da quantidade de opções técnicas que tem disponíveis, do seu profundo entendimento do jogo e da sua velocidade de decisão. Um papel que foi aquele em que Renato se afirmou, mas onde nunca primou por uma superior entrega de jogo ou classe extra nas decisões de construção. João jogou até como avançado interior esquerdo, a explorar a capacidade ambivalente de escolher o jogo interior ou a busca da linha, a sua receção orientada e capacidade de drible conjugada com a mudança de velocidade que lhe sai natural, mas que é pouco determinante para o seu jogo. Mas se era capaz de cumprir, nessa função faltava-lhe a tal capacidade intimidatória de um jogo que tem sempre mais de criativo do que de explosivo. Certo é, de cada vez que a bola passa pelos seus pés, o jogo da sua equipa acelera automaticamente e ganha sentido de baliza.

Até pela quantidade de funções que lhe podem ser pedidas em campo, João Carvalho denota ser um jogador com um repertório técnico superior ao de Renato, cada vez mais acantonado em funções mais recuadas no terreno, cada vez mais longe dos tempos em que se evidenciava também como finalizador.

João Carvalho terá de continuar a sua evolução. Mesmo na glória do Dragão, um traço que ainda não o abandonou relevou, e denunciou um processo de maturação que ainda não está terminado e que vai muito além do crescimento físico do jogador. Sendo um jogador para os grandes jogos e para os grandes momentos, ainda tem de nivelar as suas curvas de motivação. Por um lado tende a acomodar-se perante os desafios mais fáceis, como aqueles que enfrentava na Liga Ledman e nos quais por vezes parecia fazer apenas o suficiente, por outro, naqueles em que sente o ambiente e as coisas lhe começam a correr bem onde por vezes ainda denota uma certa queda para solista que ao mais alto nível pode não ser tão bem tolerada, até pelo preço que muitas vezes traz associado.

João Carvalho poderá ser mesmo o canivete suíço que faz falta ao plantel de Rui Vitória. Capaz de jogar nas alas do ataque ou até no papel de Jonas, seria sempre uma alternativa válida para render Pizzi, com quem partilha de algumas características, nomeadamente a de não se evidenciar de forma absolutamente extraordinária em nenhuma vertente do jogo, mas cujo o mix de aptidões é ainda mais rico. Sem emprestar uma dimensão física tão marcante em termos de velocidade e de capacidade de obrigar também o adversário a um erro mais frequente, João Carvalho poderá vir a devolver um certo ímpeto ao ataque encarnado que Gonçalo Guedes parece ter levado com ele para Paris. Provavelmente por não ser esse tal jogador fisicamente impactante na cada vez mais determinante avaliação física do jogador, talvez por isso mesmo venha a aquecer o lugar por mais tempo no plantel principal benfiquista. E dentro de um ano estaremos aqui para responder se entre críticos e adeptos não haverá muito mais gente que afirme:

- O João é ainda melhor do que o Renato.

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