A recente auditoria forense ao Futebol Clube do Porto revelou que não existiu qualquer relatório de scouting para 51 contratações efetivadas durante a anterior gestão da SAD.. Tal constatação não só levanta questões sobre a transparência de cada uma destas operações em particular, como igualmente sobre a gestão do clube, ou não tivesse o FC Porto um histórico de recrutamento do qual se pode orgulhar, e profissionais a trabalharem, ou que trabalharam para o clube, que no desempenho destas funções granjearam reputação e foram, assim como o continuam a ser, reconhecidos inter pares pelo seu talento, profissionalismo, e dedicação ao clube.
Ao ler as notícias, é a ingratidão que está subjacente a esta revelação que me aflora num primeiro momento, e aqui presto toda a solidariedade para com os colegas, tantas vezes responsabilizados por más decisões para as quais, hoje sabemos, em nada contribuíram. Mas devemos aproveitar esta oportunidade para pôs em evidencia a importância de um scouting eficaz comprometido com uma estratégia de desenvolvimento financeiro e desportivo para o sucesso a longo prazo de um clube profissional de futebol.
Que lições podemos tirar:
Em primeiro lugar, a ausência de relatórios de scouting para determinas contratações sugere falta de planeamento na gestão desportiva do FC Porto. O scouting não se limita a observar casuisticamente e para suprir uma qualquer necessidade o desempenho deste ou daquele jogador em campo. Antes de tudo envolve uma análise detalhada da própria equipa e cultura do clube, das suas condições de recrutamento e da sua estratégia de desenvolvimento. Tendo estas bases como seguras avançamos então para a identificação proactiva e preventiva de perfis técnicos que indiciem uma boa potencial adaptação ao estilo de jogo da na equipa por parte do putativo reforço, nunca descurando a análise psicossocial do atleta. Sem este cuidado no trabalho de casa, as contratações tornam-se numa roleta russa, e as probabilidades de sucesso reduzem-se substancialmente. Segundo um estudo da CIES Football Observatory de 2020, apenas cerca de 40% das contratações resultam em sucesso a longo prazo, um número que poderia ser substancialmente mais elevado se a maioria dos clubes investissem e fossem fieis a processos de scouting bem estabelecidos, como aponta o mesmo estudo.
Além disso, a falta de uma abordagem profissional e metódica ao scouting leva inexoravelmente a maus resultados financeiros, como é hoje também evidente pela situação em que o FC Porto se encontrava à data em que André Vilas Boas assumiu a presidência. Jogadores contratados sem a devida análise podem não atingir as expectativas, resultando em custos elevados para o clube e, eventualmente, em prejuízos financeiros. Até porque, no trabalho que é pedido a um scout de primeira equipa num contexto Champions como é o do FC Porto, o trabalho do scouting também passa por uma análise preliminar das condições financeiras para a potencial contratação assim como a busca e comparação com perfis que se encontrem acessíveis entre as balizas de um pré-determinado budget para cada operação em concreto. Clubes que implementam uma estratégia de scouting disciplinada e eficaz conseguem reduzir os custos por jogador contratado, reduzir igualmente o número de contratação necessárias para atingir o sucesso e aumentar o retorno sobre investimento. Isto é o que diz o "The Financial Impact of Player Recruitment Errors", relatório publicado pela Deloitte em 2019.
Assim, uma abordagem negligente ao scouting não é uma mera questão desportiva, mas também, e essencialmente, um má pratica de gestão com impactos negativos a prazo na saúde financeira dos clubes.
O investimento em scouting não é um custo, mas sim uma poupança de médio longo prazo.
Devido ao preocupante contexto actual do FC Porto, esta é ainda uma lição da qual a atual administração da SAD portista deverá retirar consequências mais estruturais. Sendo um homem do futebol, estou certo que André Vilas Boas o fará.
Contratações sem o devido processo de scouting colocaram em risco a continuidade do sucesso desportivo do Porto. O desempenho insatisfatório gerou pressão sobre a direção do clube e levou a uma perda de credibilidade desportiva e financeira, tanto junto dos adeptos quanto dos potenciais investidores, situação para a qual esta auditoria poderá representar um momento de viragem.
Com a crescente competitividade e profissionalização, os clubes que não se adaptem às melhores práticas de scouting vão ficar para trás. Mesmo em ligas de menor projeção, a metodologia de scouting deve ser o pilar fundamental da estrutura de gestão. Os clubes devem investir em tecnologias que facilitem a análise de dados e sobretudo em pessoal especializado que tenha conhecimento profundo do mercado.
A auditoria ao FC Porto serve pois como um alerta para todos os clubes do futebol português. O sucesso não é construído apenas sobre os investimentos, mas sim sobre uma gestão inteligente e informada desses investimentos. Um scouting eficaz é crucial para tal, promovendo contratações que se alinhem com os objetivos desportivos e financeiros dos respectivos projetos desportivos. A gestão de longo prazo tem de ser encarada com toda a responsabilidade. A experiência de subalternização do scoutingndo FC Porto é uma lição que não pode ser esquecida.
