Adeus, Mujica: o Presidente que amou o futebol dos simplesMorreu José “Pepe” Mujica, e com ele partiu mais um pedaço da alma romântica do futebol sul-americano. Presidente, guerrilheiro, homem do campo e poeta das palavras, Mujica foi muito mais do que ser Presidente do Uruguai, foi um símbolo da humildade e da coerência, um apaixonado pelo povo e pela bola que o povo ama, em particular o seu. Um homem que sentia o futebol como quem descalço sente a terra por debaixo dos pés.
Adepto do modesto Cerro, clube de bairro em Montevidéu, dizia com uma ternura desarmante: “Sou adepto de um clube local. Estou habituado a perder, mas torço pelos meus vizinhos.” Era assim o "Pepe", o seu amor ao clube não dependia de troféus, era feito da fidelidade às suas origens, no orgulho em ser igual a todos os outros, sobretudo aqueles que com ele partilharam o berço mas que nunca venceram no campeonato da vida.
Durante o Mundial de 2014, no Brasil, e como Presidente do Uruguai, defendeu Luis "El Vampiro" Suárez após o famoso episódio com Chiellini com a frontalidade que o caracterizava. Disse: “Foi uma punição aos humildes.” Não foi apenas um gesto de solidariedade patriota, foi uma declaração contra o futebol moderno, distante das suas raízes mais populares. Chamou então aos dirigentes da FIFA “um bando de velhos filhos da p#t@”. E não o fez pela provocação, fê-lo por revolta genuína. Doía-lhe ver o seu amado futebol transformado num negócio de milionários, desligado do futebol de rua.
“Tudo é negócio. Até as emoções das pessoas, e o futebol também”, dizia desiludido. E tinha razão.
Hoje despedimo-nos de Pepe Mujica com saudade e gratidão. Foi dos raros que, do alto da presidência de um país, nunca deixou de ser do povo, e apaixonado pelo desporto do povo. Até ao fim, defendeu a simplicidade de uma bola e duas balizas como a beleza do jogo, a beleza no toque na bola, das alegrias partilhadas, fossem nos estádios, fossem nas ruas.
Obrigado, Pepe. Ficarás como um dos últimos românticos. Um adepto verdadeiro. Um homem bom.
