Nuno Félix

Nuno Félix Scout internacional

Arábia Saudita: "Jesus loves you!", but...

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A Arábia Saudita está a derrubar um enorme obstáculo, que a separava do resto do planeta futebol, ao permitir que as mulheres assistam aos jogos ao vivo nos estádios, mas as questões que podem hipotecar o futuro do futebol saudita talvez sejam de outra ordem.

Na prática, a abertura às questões de género pode não ter sido mais do que uma narrativa alternativa, uma cortina de fumo para encobrir uma questão muito mais profunda que poderia ter levado a Arábia Saudita à exclusão da Campeonato do Mundo na Rússia.

A Arábia Saudita tem estado sob crescente escrutínio pelo Comité Olímpico Internacional (COI) e pela FIFA devido à interferência do governo nas federações desportivas nacionais. Tem sido prática corrente substituir dirigentes federativos eleitos internamente por nomeados apoiados pelo governo. Turki Al Asheikh, ministro da Juventude, fez dezenas de nomeações para diversas entidades federativas.

O COI, em particular, está cada vez mais preocupado e realizou reuniões internas sobre possíveis cursos de ação.

Quando o partido governante no Kuwait (leia-se família) indicou alguns dos seus familiares para a federação de futebol do país, este foi suspenso pelo COI e pela FIFA. Isto resultou numa penalização tremenda de uma geração inteira de jogadores, impedidos de participar em competições bem mais interessantes do que o campeonato local, como o são a Taça da Ásia ou o Campeonato do Mundo.

Na Arábia Saudita, a situação é ligeiramente diferente, mas apenas ligeiramente. A interferência política no futebol é relatada por pessoas de dentro do futebol saudita e parece ser cada vez mais tangível.

Os sauditas parecem ter escolhido fazer o seu caminho para a aceitação global pela comunidade desportiva sobre uma corda bamba que a qualquer momento pode resvalar para a exclusão internacional.

O futebol, qual aldeia de Astérix, é a única grande federação desportiva na Arábia Saudita resistente que, até ao momento, não teve qualquer dirigente substituído por nomeados governamentais. Mas a verdadeira notícia é que, embora os orgãos sociais da federação de futebol da Arábia Saudita não tenham sido formalmente afastados, há quem afirme que já não são eles a dar as cartas...

A Arábia Saudita desportivamente tem evoluído sobre todos os parâmetros, com particular destaque para o futebol, onde é presença assídua no topo das maiores competições mundiais. Qualificou-se para a Campeonato do Mundo de 2018 (onde mostrou bom futebol embora ainda com algumas fragilidades congénitas), para a Taça da Ásia em 2019, e de tem uma equipa, o Al Hilal de Jorge Jesus, na final da Liga dos Campeões da Ásia.

O alarme está a soar! E o futebol saudita tem mais a perder do que qualquer outra modalidade praticada no país. Uma reação do COI com vista a suspender o país pode estar eminente e a sanções da FIFA, neste contexto, virão por arrasto.

Com o futebol a ser uma ferramenta geopolítica cada vez mais valiosa no mundo árabe, o poder político saudita parece pois estar a ser demasiado ousado, já que corre o um risco altíssimo virar o feitiço contra o feiticeiro.

Num plano mais regional a Arábia Saudita e os seus aliados egípcios e dos EAU, em particular, também estão a usar todas as influências possíveis para pressionar os anfitriões do Campeonato do Mundo de 2022.

O Qatar tem assumido uma posição crucial na dinamização desportiva no contexto árabe. Numa lógica de guerra fria regional, que nada tem a ver com o desporto, também parece ser objetivo bem marcado por este consórcio, qualquer perda de rosto por parte das autoridades do Qatar. Na prática, seriam estes países árabes vizinhos os maiores defensores de que não existem condições para a realização da competição de 2022 no pequeno, mas abastado, Qatar. Obviamente que, tendo em conta tudo o que está em jogo, as mais altas esferas da FIFA não vêm com bons olhos estas movimentações.

A substituição do Qatar por outro país organizador, seria uma vitória política muito mais significativa para os vizinhos beligerantes do que muitos milhões de dólares de prejuízo resultantes dos embargos económicos e legais em vigor entre entre vizinhos.

A notícia de que as mulheres podem podem assistir aos jogos é ótima, mas as expectativas ainda estão muito longe do liberalismo global e do incentivo à igualdade que o mundo do desporto promove cada vez mais.

Ainda na região, recentemente a FIFA "lavou as mãos" na disputa entre a Palestina e Israel dizendo que era uma questão política, que precisava de uma solução política, e não através de futebol.

Sob a égide de Infantino o órgão regulador do futebol mundial claramente perdeu seu apetite por tentar resolver questões políticas através do jogo, e muito bem!

Ao desporto o que é do desporto. À política o que é da política. E a Jorge Jesus, e a todos os profissionais portugueses a trabalhar na Arábia, muita sorte!

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