Nascido num país onde o futebol confunde-se com religião, não é estranho que o Papa Francisco fosse um homem da bola. Jorge Mario Bergoglio, sócio fervoroso do San Lorenzo de Almagro, foi a mais bela metáfora da comunhão entre a fé e o futebol. Quando foi eleito Papa em 2013, os adeptos do clube argentino invadiram as ruas de Almagro com um orgulho quase evangélico: “O Papa é Cuervo!” – gritaram, lembrando o apelido carinhoso dos adeptos do clube azulgrana.
O eterno Eduardo Galeano escreveu: “o futebol é a única religião que não tem ateus”.
Esta verdade encontrou em Francisco a sua confirmação mais doce. Crescido nas ruas de Buenos Aires onde a bola era oração e os passes as rezas e ladainhas, o jovem Bergoglio aprendeu desde cedo que o futebol era mais do que um jogo: era um teatro da própria Vida!
Albert Camus, que foi guarda-redes, antes de se tornar num filósofo e escritor, dizia: “Tudo o que sei da moral e das obrigações dos homens, devo-o ao futebol.”
E talvez tenha sido por isso que Bergoglio sempre entendeu o relvado como um espelho da alma homens.
O Papa nunca escondeu pingo de entusiasmo quando falava do seu clube, não se preocupava com o julgamento dos adeptos do Boca ou do River Plate, porque sempre o amou sempre o seu clube com a humildade de quem sabe que o futebol é celebração, é amor à bola e ao desporto, e não mera idolatria.
"No futebol, como na vida, ganha-se e perde-se", disse numa audiência.
"O importante é jogar limpo, com dignidade."
Num tempo de VARs, egos inchados e clubes convertidos em marcas globais, Francisco recordou-nos sempre que o futebol tem alma – e que essa alma não pode ser vendida.
Pier Paolo Pasolini viu no futebol “a última representação sagrada do nosso tempo”.
Talvez, por isso, Deus tenha escolhido um adepto do desporto rei como Francisco para pastor não só dos fiéis, dos ultras, mas de todos os sonhadores da bola.
Porque entre o apito inicial e o golo no último minuto, há algo que escapa à lógica – como é a Fé!
Jorge Bergoglio continuará a torcer pelo do San Lorenzo a partir do céu onde o pulmão que lhe faltava na Terra não o impedirá de "pelear" em peladinhas azul celestes com Dios Diego Armando Maradona.
Acima de tudo e todos, deixa-nos com toda a humildade, com toda a humanidade, como é o futebol que aprende a criança, livre, sem árbitros e sem balizas, sem símbolos ao peito, e em tantas partes do mundo até sem camisolas ou até mesmo sem bolas propriamente ditas.
Porque enquanto houver uma criança com uma bola nos pés, haverá uma centelha divina de alegria no mundo.
