Carlos López: do anonimato à nota 80 no FIFA 2018
Pela primeira vez na história do Wisla Cracóvia um jogador teve direito ao tratamento dos craques por parte da equipa da EA Sports. Até à presente temporada, e apenas pelo nome, é fácil de ver que da Polónia só conhecia o Papa. No Villarreal B, a jogar 3.ª liga espanhola, Carlos López fazia figura suficiente para o video de promoção, mas o seu talento diluía-se no oceano do futebol hispânico onde um corpo pouco trabalhado para o mais alto nível lhe negava entrada na primeira equipa do submarino amarelo.
No final da justa vitória por dois golos sem resposta na casa do Legia de Cafu, "o Benfica de Varsóvia", o espanhol demora mais de 10 minutos a juntar-se à festa no balneário. "Todos me quieren mucho aquí", diria mais tarde ao jantar, e essa é a mais absoluta verdade. Os próprios adeptos do Legia não o dispensam de uma selfie ou de um autógrafo. Até os técnicos da equipa visitada, e derrotada, todos querem cinco segundos da vaga atenção do artista.
Gonçalo Feio, técnico português, um papa-títulos na Polónia, e que o treinou na Wisla não tem dúvidas: "O Carlos já não anda, ele plana baixinho"
Num campeonato de baixo perfil técnico, Carlitos já fez tantas e de tudo aos fortes e feios defesas locais que, para eles, o resultado é secundário se conseguirem evitar o momento da humilhação que a bota direita do espanhol permanentemente ameaça. É visível como hesitam antes de lhe tentarem roubar a pelota. Mesmo noutra cultura futebolística, entre o boi e o toureiro, a aficción polaca não tem dúvidas a quem prestar vassalagem. E está rendida a essa maravilha que é a bola colada à sapatilha. Se resulta em Espanha e por todo o Mundo, porque não haveria de resultar na Polónia?
Quem não sabe fazer diz que não é assim que se faz. A inveja é amiga da preguiça e correr é muito mais fácil do que controlar uma esfera. Dizer mal do jogador que sabe jogar à bola apenas porque não tem metro e oitenta, não é confundir a árvore com a floresta, é confundir o carpinteiro com a tábua de pinho.
Em Portugal já houve quem quisesse um pinheiro para jogar na frente. Em Inglaterra com o Manchester City dos pequeninos, na Alemanha de Götze e Reus, na Polónia com o Carlos López, pouco a pouco vão caindo dogmas, e outros disparates, porque um jogador que é bom jogador joga em qualquer parte do mundo.
Carlos López joga muito. Tecnicamente evoluído, cultiva uma relação de grande proximidade com a bola, e com o risco. Aquela que noutros pés está sempre a fugir, nos pés do 10 do Wisla Cracóvia é tratada com carinho no momento da receção e com a tranquilidade da certeza no momento da despedida. Com pormenores de qualidade criativa que adornam um futebol bastante efetivo, a bola volta para os pés do espanhol sempre que a equipa dele necessita. Dentro de campo é um leão. Em posse vai para cima dos defesas sem preconceitos e receios formatos pelo "futebol moderno". Se tiver uma oportunidade para rematar aproveita-a, se ela não existir inventa algo. Com confiança será sempre um forte candidato a pichichi. Sem bola é uma gazela tresmalhada, foge das marcações que lhe tentam impor apresentando-se muitas vezes bastante aberto pelos flancos. A bola é para lhe ser servida no pé. A exploração da profundidade expõe limitações físicas razoavelmente evidentes nas divididas. Mas fica o conforto para o adepto do Wisla, e para o olho mais atento da bancada, do que tem para oferecer ao jogo deixa tudo em campo. Se durar apenas 70 minutos serão de grande influência no jogo, se durar os 90 (o que é raro) melhor para o espetáculo e para os números no marcador.
Veremos onde jogará na próxima temporada. Se na Champions com um Legia europeu, que tudo fará para o roubar o mágico ao seu adversário interno, ou se bem mais por perto de nós... Em qualquer dos casos será um renovado prazer.
O Carlos López é um dos raros jogadores que por estes dias merece o 10 que traz às costas.
