Como o Covid-19 vai melhorar o Scouting para sempre
Na vida de um scout de futebol profissional passar mais de 280 dias por ano em viagem, assistir a mais de 300 jogos ao vivo, fazer mais de 3000 kms de carro por mês, somar várias dezenas de milhar de quilómetros de avião é mais a regra que a excepção.
Bem... desconfio que 'not anymore'!
Em 2010, aqueles que me invejavam essa vida de viagens pelo Mundo, de jogos de futebol à pala, desconfiavam do exagero. Na realidade, era já essa a norma de à vários anos para quem trabalhasse para um clube da 1.º Bundesliga ou para os ingleses da Premier.
Por cá, os poucos scouts que trabalhavam para os poucos clubes portugueses que faziam um trabalho sério de prospeção e recrutamento, viam-se profundamente limitados pela localização geográfica do país, pela crise económica, pelos voos low-cost ainda pouco abundantes, pelos constrangimentos orçamentais que lhes eram impostos pelos seus clubes,sempre dispostos a arriscar milhões em contratações mas resistentes a pagar tostões para as avaliar.
O advento das plataformas de análise de vídeo e das bases de dados de jogadores era ainda muito recente. A sua fiabilidade e abrangência não satisfazia as necessidades de um trabalho sustentável e exigente. E assim, como bons portugueses que 'de poetas e de loucos todos temos um pouco', os presidentes dos clubes e os treinadores mais depressa tomavam decisões sob a recomendação de um "amigo" do que perdiam o devido tempo a analisar um histórico de relatórios de observação sobre um jogador.
Com a globalização da digitalização o nível de exigência aumentou exponencialmente. Tendo todos os clubes acesso a excelentes ferramentas de análise vídeo. Sendo o Google e o YouTube democráticos na disseminação de informação, os canais de informação privilegiada enfraqueceram e encurtou-se o seu poder de antecipação. E não foi apenas por aqui, qualquer adepto ou jornalista tem agora a possibilidade de avaliar uma contração antes mesmo de esta aterrar na Portela, aumentando o escrutínio publico dos putativos 'reforços'. Tarde e a más horas alguns clubes, nem todos, acordaram para a necessidade de investirem nos seus departamentos de scouting profissional.
E passámos do oito ao oitenta. Num repente o segredo para todo o sucesso passou a ser do scouting. Sendo essencial, não é o scouting que marca golos. A culpa para todos os males também passou para os departamentos de prospeção como se não continuassem a ser os Presidentes e os treinadores a terem a última palavra (vide o que foi dito e escrito sobre o departamento de scouting do Sporting Clube de Portugal ainda recentemente). Alías, nas ultimas eleições para o Sporting CP o scouting foi porventura o tema central de campanha, dando-se uma dimensão política que esta área técnica não tem nem pode ter.
E agora como vai ser? Com voos cancelados, com passagens sérias interrompidas, países fechados, com os riscos aumentados e a desconfiança instalada?
O live scouting profissional para a generalidade dos clubes da primeira e segunda ligas, corre o sério risco de antes de se ter tornado num protocolo imprescindivel, passar a ser novamente visto como luxo, mas agora que pela razão mais prosaica, visto que não será sustentável para a maioria dos clubes em dificuldades pagarem a uma rede de observadores e informadores assim como às suas estadias e viagens.
InStat, Hudl, Matchmetrics, Analytics FC, Statsbomb, OPTA, entre outras empresas, fornecem hoje serviços de análise de vídeo, bancos de dados, estatísticas várias e até a aplicação de inteligência artificial a modelos preditivos que, cada vez com menor margem de erro, apontam alvos e reduzem bastante as shortlists para observação a universos de jogadores restritos e bastante fiáveis.
O segredo do bom recrutamento de profissionais passará por uma bom mix de ferramentas informáticas e pela aposta na excelências dos recursos humanos, menos e mais experientes, que saibam tirar o melhor partido desta informação já bastante trabalhada.
O Covid-19 acelerou irreversivelmente a plena integração do futebol profissional neste admirável mundo novo da análise da performance e do potencial desportivo mais baseado em factos do que em percepções.
No final do processo o olho humano será sempre o decisor, mas os auxílios à decisão já estão aí para quem neles investir. Ganha-se tempo, poupa-se dinheiro, e se as coisas falharem, porque no fim de contas continuamos a falar de pessoas, saberemos muito melhor o que correu mal e poderemos alterar processos, afinar algoritmos, para falhar cada vez menos no futuro.
Melhores plantéis, melhores jogos, melhor gestão desportiva e financeira dos clubes, eis o futuro.
