Olho no jogador

Nuno Félix
Nuno Félix Scout internacional

Cu bo ti no mercado

O Sporting Clube de Portugal, fonte inesgotável de talentos, casa dos Aurélios, onde se fazem Bolas de Ouro, chegou vivo ao Natal e vai ao Dragão com hipóteses reais de disputar o título.

Quando metade já havia saído e a outra assobiava - bem o treinador ao apontar o dedo à central de Alvalade - dois miúdos da Academia trouxeram a rua para o meio do relvado e sozinhos contra o mundo deram a vitória mais sofrida da época aos verde e brancos.

Mais uma prova de que é pela Academia que o Sporting deve ir? Parece que é... mas não foi.

14 milhões depois, uns quantos exilados e outros recuperados, ontem o Sporting jogou com um onze feito de jogadores adaptados, outros que têm passado toda a temporada encostados, mais Rui Patrício e Gelson Martins.

Parece que não conseguimos fugir às evidências de Alcochete, mas vejamos mais longe.

A confusão, no sentido mais positivo do termo, que o Rafael e o Gelson armaram ao minuto 92, não vem nos livros nem ninguém ensina. Ao arrepio de todas as regras impostas ao coletivo, desafiando as probabilidades, e sem qualquer estratégia latente, pegaram na bola, fuçaram e forçaram a passagem por onde não havia por onde passar, definiram mal e tiveram a sorte que protege os audazes. Que confusão! Uma loucura! Um carrossel de emoções para o público e para os jogadores. Muita vontade e pouca cabeça. No olhar do adepto dois heróis no olhar do scout... o que aconteceu depois?!

Rafael Leão comprovou a sua distinta natureza de jogador natural, muitíssimo mais exposta agora perante 40.000 pares de olhos, do que quando desfazia e voltava a apertar nós cegos na B. É o jogador que tem tudo e logo não tem dependendo do momento do jogo. Sem bola mete a equipa a jogar com menos um, o que ontem correspondeu a menos dois. Com bola faz milagre ainda maior, a equipa desaparece por completo e é só ele com as suas pausas e o seu cavalgar desengonçado comandados por um deus Dionisíaco tão belo quanto ébrio sobre os ombros de quem a responsabilidade do resultado nunca pesa.

Gelson Martins, que sorte ainda termos jogadores assim a atuar nas nossa Liga 'prêt à vendre' diretamente da Academia ao consumidor estrangeiro. Diabólico por comparação à equipa 'made in' inverno dos Monteros e Ruizs, onde tudo se passa a diesel, ele moves-se a 'rocket fuel', num misto de coração de leão, pernas de chita e cintura de leopardo. Toca e foge, agarra e quer matar, para um jogador como este uma equipa tão limitada como o Moreirense, já começa a ser uma brincadeira. Mas autoexcluir-se do jogo mais importante da temporada?! E não foi por ter entrado delirante pela histeria coletiva a dentro e lá pelo meio ter-se visto sem camisola. Foi porque havia prometido ao puto do bairro que lhe anima os pés e que habita dentro de si, um sacrifício de sangue, um cartão amarelo, uma expulsão se necessário fosse, caso tivesse a oportunidade de celebrar um golo nos dias seguintes à detenção do seu camarada de aventura pelo mundo fantástico do futebol profissional. E o profissionalismo? Ou pensam quem bate uma cláusula doe 60 milhões quer é circo e foguetório?! Onde é que estes miúdos andam com a cabeça? Pensam que já estão em Madrid e ainda nem sequer apanharam o táxi para o aeroporto.

Jogadores fabulosos com muitos créditos para quem os descobriu e neles apostou.

Rafael e Gelson, a Taça da Liga não é nada ao pé do que vocês podem atingir com o vosso potencial e, acreditem que mesmo bafejados por esse talento e por essa alegria, essas bênçãos não vos garantem mais do que uns quantos aplausos e assobios em Alvalade, muito menos que algum dia venham a ser jogadores para um Real ou para um City.

A verdade histórica é outra. O Sporting não foi campeão com o Paulo Futre, com o Cristiano Ronaldo ou com o Luís Figo.

O Sporting contemporâneo quando foi campeão, foi campeão com o mercado, foi com os jokers de Inverno que Luís Duque desencantou nos bancos do AC Milan e do Real Madrid. Foi com o "Será do Guaraná?" rei nunca coroado de todos os avançados de área que por esta terra alguma vez passaram antes e depois dele.

E assim poderia ser esta época com as excelentes apostas em Bruno Fernandes, Matthieu e Acuna.

Mas chegou o mercado no inverno e... foram-se 14 milhões de euros, e o destino de todo um projeto desportivo continua na mão de dois putos do bairro, um fora do clássico de 6.ª feira, o outro, por estas horas, fora de órbita.

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