Nuno Félix

Nuno Félix Scout internacional

Edwards de bestial a Beste

Marcus Edwards atrasou-se para a final da Taça da Liga. Coisa pouca, afinal é apenas a 3ª competição nacional, e finais, nos últimos tempos, o Sporting tem tido todos os anos. Qual era a pressa para um atleta que trabalha e reside em território português há mais de 5 anos e ainda cumprimenta à chegada à Academia Cristiano Ronaldo com um universal "Good Morning" e agradece à saída com um sempre agradável "Thanks". Sabemos todos que o Português não é o idioma mais acessível, mas convenhamos, que qualquer estafeta recém chegado do Paquistão ao final de uma semana de trabalho já diz "Bom dia!" e "Obrigado" sem qualquer dificuldade.

Jan-Niklas Beste que no início da temporada ameaçou até vir a tornar-se o titular de uma posição que nunca foi a sua numa defesa a 4, já fez saber que não se adaptou não sabemos se ao país, se ao clube... Não sabemos se terá sido até do peixe fresco, ao sol do Seixal, se serão saudades do barbeiro de Heidenheim, ou simplesmente uma melancolia instalada por já não poder comunicar na língua materna com a equipa técnica do Benfica. Certo é que quer voltar para Alemanha. Veio da equipa mais pequena da 1. Bundesliga para jogar a Champions League é certo, mas também é verdade que o SL Benfica foi o único clube que aceitou pagar um valor de transferência pouco acima de metade do valor de mercado do jogador á data.  

O futebol português tem sido, ao longo dos anos, um terreno fértil para o desenvolvimento de talentos estrangeiros e projeção de carreiras. Muitos jogadores chegam a Portugal vindos de ligas menos competitivas e de mercados emergentes, mas outros (menos) também procuram Portugal provenientes das Big Five como o são os casos das ligas Alemã e Inglesa. Procurando um rumo de carreira alternativo a contextos pouco propícios a sua afirmação nos seus países de origem. Baixotes como Edwards (apenas 168cms) e escanzelados como Beste (66kg no seu máximo) aqui encontram uma cultura tática que valoriza menos os duelos individuais, assim como um ambiente competitivo menos desgastante, quer pelo menor tempo útil de jogo, quer pelo desequilíbrio competitivo da Liga, quer por modelos táticos que privilegiam a organização à transição. 

Nos planos de carreira destes jogadores está sempre um objetivo, evoluírem como jogadores numa liga menos competitiva, mas de grande exposição ao recrutamento dos grandes da Europa como o é a Liga Portugal, e eventualmente retornarem a casa, revalorizados e finalmente devidamente reconhecidos. No entanto, nem todas as histórias têm um final feliz, e as e Marcus Edwards e Jan Niklas Beste ainda estão por cá para nos recordarem disso mesmo, lembrando a todos como a adaptação ao nosso futebol pode ser um desafio considerável para alguns atletas.

Marcus Edwards, jogador inglês formado no Tottenham Hotspur, chegou a Portugal em 2019 com 20 anos de idade e "custo zero" para representar o Vitória Sport Clube. Carlos Freitas, à época Diretor Desportivo em Guimarães, reconheceu nele o singular recorte técnico e um potencial de valorização futura dada a nacionalidade do jogador e devido à expectativa que a contratação por um clube português de um internacional jovem pelas seleções inglesas suscitaria no mercado. A decisão revelou-se feliz. O Vitoria valorizou o jogador ao ponto de o transferir para o Sporting Clube de Portugal salvaguardando significativas mais valias. Em Alvalade o mini messi de Londres nunca se assumiu como um indiscutível, produziu, é certo, belos momentos de grande futebol, mas o jogo são 90 minutos mais compensações e uma temporada é composta de um campeonato de 34 jornadas, mais taças nacionais e internacionais, não dá para jogar só para a nota artística e quando se está num dia bom.

Livrou-se do futebol mais direto e menos associativo, dos duelos aéreos e das bolas na profundidade, mas Edwards não teve resposta consistente para a exigência tática do campeonato português, mostrando dificuldades para se ajustar às nuances estratégicas pedidas pelos seus treinadores. A necessidade de uma maior disciplina posicional e de uma participação mais ativa nas fases defensivas do jogo revelou-se um desafio considerável para o pequeno inglês.

Por outro lado, temos o caso de Jan-Niklas Beste, Extremo-esquerdo alemão proveniente das camadas jovens do Borussia Dortmund, que por aqui se vendeu aos adeptos benfiquistas como a escolha de Roger Schmidt para defesa esquerdo. Ainda jovem granjeou uma reputação de jogador promissor, com potencial para se tornar um titular indiscutível na equipa principal do Borussia, porém, e apesar de um percurso de mérito pelas seleções jovens alemãs, falhou no objetivo. Após empréstimos ao futebol holandês e a divisões inferiores, falhou novamente no Werder Bremen. O seu estilo de jogo intenso e vertical, típico para um jogador de ala germânico, sofria com a falta de capacidade física nos contactos e a "perna curta" que lhe conferia aceleração e explosividade nos primeiros metros, mas que lhe alongava o campo no ataque ao espaço. Só no pequeno Heidenheim a jogar com três centrais e dois médios defensivos, e numa equipa com muito mais coração do que talento, se destacou, muito por conta da excecional precisão do seu pé esquerdo, e assim conseguiu números impressionantes principalmente na execução de bolas paradas. 

Relvados à parte, um dos confessos problemas de Beste tem sido a barreira linguística. Esta barreira pode não afetar sobremaneira o seu desempenho em campo, mas parece estar a dificultar a sua integração no balneário e na cultura do clube.

E aqui encontramos pontos comuns para estes dois atletas. Vêm para Portugal para darem uma dimensão diferente ao seu futebol, mas o seu compromisso nunca pareceu ter os arraiais assentes por cá. E se o problema é a língua, porque não adotaram os clubes as melhores práticas de recrutamento das grandes ligas? Aquando da sua contratação dos tem de haver um compromisso mútuo entre o atleta e o clube, para que num espaço de tempo tão curto quanto possível, adquira as competências linguísticas essências para a sua boa integração no seio dos respetivos clubes, e se o jogador declarar que não está para aí virado, então o melhor será o clube ir procurar a outro lado.

Os atletas profissionais não necessitam de se fazer acompanhar de tradutores ou amas secas, na minha opinião essa até pode ser uma opção preguiçosa e contraproducente, para além de muitas vezes disruptora do trabalho em grupo com os restantes membros do plantel mais autónomos. 

O dever de qualquer atleta recém-chegado é fazer um esforço competente para conseguir comunicar no seu novo ambiente de trabalho. A obrigação do clube é, e repito, logo no momento da sua contração, fazer-lhes saber que esperam deles esse esforço de integração, que esta faceta do seu desempenho também estará sob avaliação, e que lhes prestarão todo o apoio e condições para que sejam bem-sucedidos. 

Faz algum sentido que os jovens nas academias do Seixal e de Alcochete aprendam línguas estrangeiras como forma de os preparar para uma futura carreira internacional, e que não haja um cuidado ainda maior com profissionais estrangeiros contratados para as respetivas equipas principais?

É importante notar que a inadaptação destes jogadores não é necessariamente um reflexo da sua qualidade ou potencial, mas sim mais um exemplo das complexidades envolvidas na transição entre diferentes culturas. 

Fatores como idade, experiência prévia, personalidade e apoio recebido do clube desempenham um papel crucial neste processo de adaptação.

Marcus Edwards e Jan Niklas Beste não vieram para Portugal como jogadores bestiais e não retornaram para os seus países de origem rotulados de bestas. Mas que sirvam de aviso à navegação! 

Para os clubes, fica sublinhada a necessidade de fornecerem o apoio adequado aos jogadores estrangeiros, tanto dentro como fora do campo, para maximizarem as hipóteses de uma transição bem-sucedida. 

Para os jogadores fica a lição da importância da flexibilidade, da resiliência e da disposição para aprenderem e evoluirem face a desafios diversos daqueles a que estavam habituados.

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