Nuno Félix

Nuno Félix Scout internacional

Este Governo não vai à bola - parte II

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Os restaurantes montam as esplanadas, as agências de viagens reenviam newsletters. A ordem é: voltar a mandar passear os portugueses! É preciso salvar os empregos de quem trabalha na hotelaria e na restauração.

Somos novamente o país do sol e da praia.

Agora imaginem o que seria se a Secretária de Estado do Turismo viesse dizer:

- Se calhar este ano nem vamos abrir a época balnear...

Isto vem a propósito da opinião que aqui partilhei na passada quinta-feira dia 14. Já nos bastava um Primeiro-Ministro que aconselha os portugueses a comerem fora para salvar os restaurantes, mas que quando inquirido sobre o futuro do futebol diz que tem coisas mais importantes com que se preocupar, ainda vieram a público declarações do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto dizendo que talvez nem haja condições para o reinício da Primeira Liga!

Nestes dias de profunda incerteza económica, e de angustia para tanta gente que se vê impedida de trabalhar, o impacto que tal opinião tem sobre os decisores do futebol português é devastador.

No entanto fui injusto. Fomos todos. João Paulo Rebelo, alertado para o artigo, entrou em contacto comigo nesse mesmo dia esclarecendo que as suas declarações estavam datadas. Haviam passado uma semana antes num programa da Bola Tv, aparentemente sem grande audiência, e acabaram recuperadas pelo Jornal Económico na semana seguinte. Segundo ele, tratava-se apenas de uma mensagem de cautela.

Como a descontextualização oferece uma gravidade tão desproporcionada a uma declaração tão inocente. Podia esconder-me atrás do equivoco e deixar correr o marfim, por estes dias todas as desculpas parecem ser válidas para se evitar qualquer assunção, ou no limite, para não se ser solidário com quem por estes dias receba menos 'likes' nas redes sociais. Admitamos, o SEJD não tem tido umas semanas fáceis, entre acusações e suspeitas, decorrências naturais de uma corrida suja à liderança regional partidária de onde é originário. O desporto é que não pode ser a vitima colateral dessa dispersão partidária Ao responsável máximo pelo desporto é-lhe exigível que lute até ao limite das suas competências formais e pessoais, pelas vidas dos cidadãos que dependem do futebol, e do desporto em geral.

Este discurso cauteloso do tipo "-Se não der é chato mas para o ano há mais" ignora o quão crucial é para toda a industria voltar, o quanto antes, à produção do seu produto que são os jogos de futebol. 

O poder político distribui regalias por sectores de atividade económica que não produzem quaisquer mais valias para o país, e que ainda pagam impostos na Holanda. Mas no futebol, que é um contribuinte liquido para a nossa balança de pagamentos, não somos todos ricos e nem todos temos a proteção de grupos de pressão e de sindicatos abastados.

Infelizmente, a realidade é bem diferente, mesmo na Primeira e Segunda Ligas. O futebol paga mal e oferece carreiras instáveis. Os clubes e outras empresas correlacionadas recorrem em demasia ao trabalho precário, aos chamados recibos verdes, e a componentes de remuneração variável pouco fiáveis. É a falsa profissionalização nivelada muitíssimo por baixo e demasiadas vezes desajustada com as responsabilidades assumidas pelos seus profissionais. Lidamos com milhões e pagam-nos tostões… quando pagam! Analistas, técnicos das mais diversas áreas, da nutrição à recuperação, ao tratamento dos equipamentos e das instalações, quantas vezes não são tratados como se remunerá-los fosse quase um favor? E agora que o futebol parou foram eles os primeiros a sofrer.

Mas tudo isto tem uma origem, ou melhor um alibi, e essa desculpa vem de cima.

O futebol, é uma das principais industrias exportadoras do nosso país, mas é tratada como um mal necessário, um meio mal frequentado com quem os políticos só querem interagir nos momentos de glória, ou que tentam utilizar para distrair a populaça.

Pois sabemos todo, e o Governo sabe melhor, que problemas como, a sustentabilidade dos clubes (profissionais e amadores), o matchfixing (onde somos uma referencia pelos piores motivos), ou violência no desporto, radicam em muitos vícios de forma resultantes da demissão do Estado enquanto promotor das necessárias mudanças para que os clubes sejam efetivamente entidades de verdadeira utilidade pública.

Para quando a imposição da centralização dos direitos televisivos como o fez o governo espanhol?

Para quando a tolerancia zero para a violência associada ao desporto como o fez o governo inglês?

Para quando a alteração da lei das SADs para que o nosso pais fique em linha com as melhores práticas do vários países com quem concorremos nas provas da UEFA?

E se quisermos pisar os terrenos pantanosos da viciação de resultados, o Governo não tem opinião sobre a origem de muitos dos investimentos nas nossas SAD`s? É que alguns desses asiáticos e africanos nem escondem os interesses que têm na industria das apostas desportivas!

Este governo vai com 6 anos e os problemas diagnosticados então persistem e muitos deles agravaram-se.

No momento em que muitos cidadãos que dependem desta industria para sobreviver, do que é que o poder político está à espera para fazer o que lhe tem sido pedido por todos os parceiros desde os sindicatos, à Liga de Clubes ou até à própria Federação Portuguesa de Futebol?!

Acabem com os protetorados e ajudem a salvar cada clube, cada posto de trabalho, cada empresa que trabalhe para o nosso futebol!

A receita já a têm, tem faltado é a vontade para pôr a mão na massa.

Não haverá melhor oportunidade do que esta.

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