Olho no jogador

Nuno Félix
Nuno Félix Scout internacional

Filipe Augusto: devia ter assinado em agosto

O baiano do Rio Ave chegou mais tarde do que cedo, e tal como a pisa, entrou na Luz pela sombra, de pé leve, quase sem se fazer notar e num momento em que, por via do calendário e da estranha praga de lesões, as costuras que ligam o meio campo benfiquista estavam prestes a rebentar.

Vindo do Esporte da Bahia, este Filipe bem que se podia alcunhar Filipe Baiano na tradição bem brasileira de usar terra natal do jogador para batizar o artista. Por ventura o slot já estava ocupado, ou, mais provavelmente, foi caçado tão verdinho pelas terras de Vera Cruz, que a imprensa local nem teve tempo para idolatrá-lo.

É que olhando bem para este moreno, tem mesmo tudo o que o baiano tem.

Tem jeito de baiano tem. Tem ritmo de baiano tem. Tem corpo de baiano tem. Terá cabeça de baiano também?

Certo é que convenceu logo em 2013 quando chegou a Vila do Conde, tinha então apenas 19 anos.

É certo que o impacto tático do futebol europeu pode não ser tão sentido por um segundo volante que venha jogar para uma equipa de meio da tabela do futebol português e que, para mais, jogue com dois médios de contenção como jogava o Rio Ave de Nuno Espírito Santo. Não é pois de subestimar a qualidade que viram nele quer o Sp. Braga, quer o Valencia, por onde passou precocemente e não confirmou o enorme potencial do seu futebol aveludado.

Não vale a pena fugir à insinuação silenciosa que paira sobre esta, bem como sobre outras carreiras geridas pela Gestifute de Jorge Mendes. Não terá sido a sua chamada à seleção olímpica do Brasil, bem como a sua ascensão meteórica no futebol ibérico, apenas mais uma das faces visíveis do negócio em que se tornou o futebol moderno? Ou alguém acredita que um clube como o Rio Ave tem a capacidade de, per si, descobrir e recrutar jogadores que quase de imediato disponibiliza por empréstimo a clubes gigantes, como já havia sido o caso um ano antes do empréstimo do Fabinho para o Real Madrid?

E pegando também no caso do Fabinho que, ao que parece, nem desfez a mala em Vila do Conde - foram maus negócios? Estes jogadores que vieram, e que foram, e que no caso do Filipe retornaram, não eram no essencial muito jogador para um clube tão modesto?

Seja reconhecido o trabalho de Anderson Luís de Souza, mais conhecido pelo planeta futebol como… Deco. Ainda mal havia pendurado as botas no balneário das Laranjeiras (quase secular casa do Fluminense Football Club) e já fazia todo o uso da sua vasta rede de contactos e conhecimentos em ambas as margens do Atlântico, enveredando pela atividade de representação de atletas. E não o fez sozinho, fê-lo em parceria com o maior empresário do mundo, numa relação que revolucionou o mercado futebolístico brasileiro, em particular, no que diz respeito à deteção e importação de talento brasileiro para o futebol europeu.

Sabem o que é um 'baiano' na gíria carioca? Pois não assenta bem a ninguém mas baiano que é verdadeiro baiano nem com isso se importa. Um baiano é um preguiçoso, um lento, um relaxado.

Muito bem esteve quem, antes no Brasil, e agora no Benfica, foi capaz de ver além do que o jogador é/era e do que aparenta ser. Quem foi capaz da clarividência de perspetivar o rendimento de um jogador com a capacidade física e técnica do Filipe Augusto num contexto de uma equipa como a de Rui Vitória só pode estar de parabéns porque, arrisco dizer, esta aposta vai resultar.

Não tem a agressividade no ataque à bola e na disputa com o opositor de um 6, mas também não parece ter a mobilidade de um 8. Fácil para avaliar um baiano era ficarmos pelo que este parece não ser. Vamos ao que é.

É rápido nos movimentos técnicos com a bola no pé, não se lhe apagam as luzes sob pressão e das decisões que toma, quer de retenção de posse, de lateralização ou de rutura, demonstra ter um conhecimento das dinâmicas próprias do jogo muito acima do habitual. Tem uma intensidade de processos e de decisões que passa muito mais por qualquer coisa de interior a si e que não se traduz visivelmente ou de imediato na sua motricidade. Evidente é o conforto do Filipe com a bola, uma quantidade enciclopédica de opções de qualidade no pé canhoto e que não dispensa uma muito correta coordenação motora em posse, fazendo do pé direito uma ferramenta suficientemente afinada para ser utilizada amiúde, independentemente do instinto do jogador lhe puxar sempre para soluções com a esquerda.

É, em súmula, um talentoso inteligente, abençoado por um corpo que lhe permite ser um falso lento. Isto porque também consegue ser rápido, assim como, embora preferindo utilizar a sua leitura por antecipação ao seu poder de impulsão, é igualmente capaz de disputar duelos no espaço aério com bons níveis de eficiência, e demonstrando uma boa técnica na execução do cabeceamento.

Ser um velocista não é a sua vocação, ou sequer ambição. Lá está, é baiano. Mas os 90 minutos estão ao seu alcance, garantindo assim que, com o correto enquadramento motivacional, possa ser, não só o equilíbrio a sair do banco nos jogos mais tremidos, mas também a opção em que se pode confiar desde o apito inicial nos jogos em que o Benfica queira, e espere ter, um maior controlo sobre o jogo e necessite de garantir a conversa necessária para no final da noite pedir em casamento a vitória.

Para aqueles que desvalorizaram esta contratação de inverno como sendo mais um garçon para a boda do meio campo encarnado, a minha dúvida apenas subsiste se estamos aqui a falar do padrinho ou do próprio noivo, sem o qual a festa no Marquês não se realizará. O futuro responderá a esta hipótese que aqui lanço e que mascara mal a real expetativa que tenho para este talentoso jogador.

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