Olho no jogador

Nuno Félix
Nuno Félix Scout internacional

Foi um azar do calendário

Quis a Divina Providência que no exato fim de semana em que assistimos a um Sporting-Benfica jogado ao nível do que de melhor podemos encontrar na distrital, pudéssemos lavar as vistas com o clássico dos clássicos. O jogo no Barnabéu foi fabuloso, rico em momentos inesquecíveis e dramático na narrativa. No final, relançou o interesse no que resta de La Liga e confirmou "La Pulga" como o maior jogador de sempre do futebol moderno, fazendo crer a quem quer que tenha que passar o cheque, que o Deus argentino vale cada cêntimo que cobra. Ontem foram 600 milhões de espetadores em direto, na próxima temporada cada um convidará um amigo lá para casa, abrem umas cervejas, comem umas pipocas, e os astros puderam transferir-se por 200 ou 300 milhões, que o negócio ainda será rentável.

O Real-Barça é um espetáculo que vale a pena, e só não compramos todos uma camisola do 7 do Real ou do 10 do Barcelona porque temos vergonha de nos cobrimos com algo que não merecemos.

Em contraste, aqui pela 2ª circular, tivemos as nossa procissão das velas, com direito a mártires e tudo. Não sei quantos passos e morosas paragens a caminho do calvário dos empatas. Antes e depois, muita conversa sobre se o Jonas jogava ou não? Essa conversa sobre jogadores e sobre bola não interessa para nada. Interessa tão pouco que até o bluff do Rui Vitória, ao chamar o 10 da Luz para o último treino antes do dérbi, saiu pífio.

Nas bancadas, as tarjas não relembraram o espírito do 7-1 ou do 3-6 que inoculou tantos para a vida com a febre verde e a febre vermelha respetivamente. Houve, sim, um minuto de silêncio antes do jogo e uma coroa de flores ao intervalo. No final, mais ataques e acusações de falta de integridade e bem reveladoras da má fé que há muito substituiu o desportivismo.

E se formos a ver a qualidade do que se passou naquele relvado durante os 90 minutos... É bom de ver que para quem gosta de futebol aquilo que dizem que foi o jogo do ano..., foi um suplício, uma provação à tolerância e paciência de todos. Para quem sofre de clubite muito para além do que gosta da modalidade, também não foi desta que se apaixonou pelo desporto.

E os desgraçados que antes de gramarem com esta Super Gorila, para mais tiveram a infeliz ideia de acompanhar o espetacular Blues vs Spurs. Coitados, continuavam convencidos que o futebol apoiado do à beira Tejo era muito superior ao kick & rush by Thames...

O mundo mudou. Por cá, lamentavelmente, quase todas as mudanças parecem ser para pior, como se o Marty McFly no seu De Lorean movido a lixo tivesse vindo dos anos oitenta apregoar que afinal isto no tempo dos azeiteiros é que era bom.

Os dirigentes parecem estar mais ocupados nos seus jogos florais que acicatam ódios e legitimam os sociopatas que se escondem entre nós.

Os jogadores, mais preocupados, nesta altura do campeonato, com as reuniões no pós-jogo com os representantes dos clubes ingleses e espanhóis que se deslocaram ao estádio de alvalade.

O árbitro Artur Soares Dias, mais preocupado em apitar tudo o que se pareça remotamente com falta e em piscar os olhos nos momentos de assinalar penáltis ou de puxar do cartão, que é preciso é ter os ânimos sempre bem serenos. Cérebros bem oxigenados, pernas pouco fatigadas, e no final um empate apenas e só com os cartões que os próprios jogadores puxaram para si. Sem descompensações e sem grandes emoções, o espetáculo é paupérrimo mas o árbitro é um senhor.

E não me contive! Pela primeira vez desde que escrevo para o Record, falo em arbitragem. Mas não quero saber se foi penálti ou se merecia o cartão, o que eu queria ver, e creio que todos os clubes que enviaram emissários ao Alvalade XXI, era um jogo em que se deixasse jogar, em que as faltas fossem logo cobradas e as conversas com os jogadores acontecessem com o jogo a decorrer, em que os jogadores fossem continuamente postos à prova sem lugar a momentos para recuperar ânimos, fôlegos ou posição.

Estavam em Alvalade os maiores, e os mais ricos, clubes do Mundo! Uns apenas com olheiros, mas outros com diretores e administradores, outros ainda com agentes e fundos de investimento.

Como avaliação geral podemos afirmar sem risco que:

1. O nosso campeonato saiu avaliado muito abaixo dos cinco grandes da Europa - Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália, França (por esta ordem).

2. Pela qualidade do dérbi, muitos passes errados, muitos erros não forçados, muitas paragens, poucos remates, todos os jogadores são avaliados pelo menos a 20% abaixo do seu verdadeiro potencial (exceção feita para Adrien e Pizzi).

3. Após um jogo tão mal jogado, todas as dúvidas sobre a capacidade competitiva de muitos dos jogadores em campo são legítimas.

4. Pela ausência de mercado interno, quer entre os grandes, quer porque os pequenos não têm capacidade aquisitiva, se o Benfica e o Sporting só têm isto para oferecer, vamos ali à Europa de Leste e aos Balcãs e já voltamos.

5. Pelo facto de os exercícios financeiros dos clubes estarem fortemente vinculados à obrigatoriedade de realização de receitas extraordinárias com a venda de jogadores, são presas fáceis à mesa das negociações.

O dérbi era o nosso cartão de visita e foi tão mal tratado, e tão mal trabalhado que a montra para o espetáculo que temos para vender só pode estar em saldos.

Espero estar profundamente enganado, mas estou em crer que os nossos clubes muito em breve vão sentir no bolso o que é serem quase só garganta.

O mundo do futebol mudou, mas a nossa liga ainda não.

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