A denúncia apresentada ao Tribunal Penal Internacional contra Gianni Infantino e Aleksander Ceferin marca um ponto de ruptura, e veremos no futuro, se sem retorno. O futebol deixa de poder refugiar-se na ficção da neutralidade política.
A acusação de 120 páginas que imputam aos líderes da FIFA e da UEFA cumplicidade em crimes de guerra e contra a humanidade, sustenta que, ao integrar clubes israelitas sediados em colonatos ilegais nas competições oficiais e ao financiá-los, estas organizações normalizam a colonização e legitimam a transferência de população civil israelitas para os territórios ilegalmente ocupados na Cisjordânia.
O paradoxo é gritante: o futebol que se proclama escola de tolerância promove, na prática, uma exclusão estrutural. Os palestinianos não podem assistir, jogar ou treinar nesses clubes sediados em terras que são suas e que à luz do direito internacional vêm sendo ilegalmente ocupadas por colonatos israelitas. Ignorar esta realidade não é neutralidade, é colaboração!
Apesar dos apelos da Amnistia Internacional para suspender a Federação Israelita até à remoção dos clubes dos colonatos das suas competições internas, Infantino classificou o eventual afastamento destes clubes como uma “derrota” e defendeu até mudar os estatutos da FIFA para blindar Israel, revelando escandalosamente um duplo padrão ético. A FIFA que baniu rapidamente a Rússia, teme, no caso de Israel, confrontar a injustiça quando o custo político e financeiro ameaça ser maior.
A UEFA seguiu o mesmo caminho, recuou perante pressões diplomáticas e reafirmou, pelos factos consumados, que os seus princípios éticos são condicionados pela força dos interesses das grandes corporações.
É inaudita esta vassalagem das lideranças dos dois principais organismos do futebol mundial e europeu a interesses políticos doméstico e a beligerantes em conflitos territoriais.
Ao levar os dirigentes máximos do futebol ao Tribunal de Haia, que julga indivíduos, não instituições, o processo inaugura um precedente: as decisões sobre onde e sob que legitimidade territorial jogam determinadas equipas e clubes podem configurar cooperação em crimes de guerra.
Mesmo que Infantino e Ceferin jamais sejam condenados, o que se afigura provável, o escudo moral do futebol desapareceu por conta do seu posicionamento politico!
Se o desporto global quer continuar a invocar os direitos humanos contra o racismo e a exclusão, terá agora de aceitar que a partir de agora se jogará, também no Tribunal de Haia para os Direitos Humanos, o compromisso do futebol com a justiça e a humanidade.
Se Blatter e Platini encheram os bolsos por conta do futebol, parecem agora uns anjinhos por comparação com quem é actualmente conivente com o sofrimento humano.
