Nuno Félix

Nuno Félix Scout internacional

Iuri Medeiros: o rei do caixote do lixo

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Todos conhecemos as parábolas de Esopo. Certa manhã, o fazendeiro descobriu que a sua galinha tinha posto um ovo de ouro. Levou o ovo ao mercado e vendeu-o por bom preço. Na manhã seguinte, a galinha tinha posto outro ovo de ouro, que o fazendeiro vendeu a melhor preço.

E assim aconteceu durante muitos dias. Mas, quanto mais rico ficava o fazendeiro, de mais dinheiro precisava, porque sempre que a galinha punha um ovo tratava de o vender sem fazer a omolete.

Até que um dia o fazendeiro já era outro, que ainda mais endividado do que o anterior, pensou: "Esta galinha é muito gorda e gulosa. Ainda que ponha ovos de ouro, vai fazer uma dieta. Nem que seja do ar, continuará a pôr valiosos ovos, porque ela é o próprio tesouro!" Emagreceu a galinha e ficou admirado o fazendeiro pois, em apenas quatro anos, a galinha ficou mais magra que as dos vizinhos. 

O que teria certa 'fazenda' para os lados de Alcochete de tão especial para que, de entre sobreiros e chaparros, brotassem tantos ovos de ouro? Retirando o odor característico da fauna circundante, o que tinha de especial a mundialmente reconhecida 'Academia de Alcochete'?

Sem o saber fazer dos profissionais que descobriam e desenvolviam os ovos de ouro, a 'galinha dos ovos de ouro', vista por dentro e por fora não passa de uns quantos campos relvados, dormitórios e demais instalações.

Antes da míngua, a Academia ainda pôs no cesto que o atual fazendeiro herdou, uma última geração (93/94/95) de grande qualidade, resultado de mais de uma década de trabalho, segundo os critérios que entretanto deixaram de servir.

Falando apenas de jogadores de Seleção, em diversos escalões, deixo-vos aqui alguns exemplos.

De 1993:

João Carlos Teixeira, agora no rival FC Porto, após vários anos no Liverpool.

Ricardo Pereira, o melhor defesa direito do campeonato francês, este ano ao serviço do Nice, por empréstimo do… FC Porto.

Ricardo Esgaio, o melhor polivalente do plantel principal.

Betinho, um matador que se estreou na primeira equipa com 19 anos e depois… desapareceu.

Rafael Veloso, o jovem guarda-redes que o Sporting não quis vender ao Liverpool e que impediu de assinar pelo Barcelona, para na época passada, ao serviço do Oriental, o vermos envolvido no escândalo da viciação de resultados.

Agostinho Cá, um Edgar Davids em potência, vendido para o Barcelona para ajudar a pagar compromissos correntes.

João Mário, entretanto convertido em… liras de ouro!

De 1994:

Rúben Semedo, pilar da primeira equipa ou suplente de Douglas... já ninguém sabe ao certo.

Carlos Mané, a partir tudo no Estugarda.

Bruma, será que ainda se lembram do prodígio perdido para a Turquia?

Tobias Figueiredo, o mais talentoso defesa-central do futebol português que teima em não se afirmar num Nacional em crise.

Edgar Ié, embrulhado com Agostinho Cá rumo à Catalunha.

De 1995:

Francisco Geraldes, jogador muito maior do que… Moreira de Cónegos.

Podence, um talento apenas para quem não mede os jogadores aos palmos.

Rafael Ramos, lateral de grande potencial que apostou precocemente na MLS.

Domingos Duarte e João Palhinha, os dois 'emprestados' ao Belenenses na primeira metade da época e que fizeram toda a diferença no Restelo

Gelson Martins

Todos jogadores portugueses, todos internacionais, todos ovos de ouro.

Iuri Medeiros, nascido a 10 de Julho de 1994 na açoriana cidade da Horta, era apenas mais um destes deslumbrantes projetos de jogador.

Reza a história que, após os treinos habituais, por irreverência, e até para afirmação entre os pares, os miúdos da Academia tinham por hábito praticar um outro desporto. As regras eram estas:

- caixote do lixo a 40 metros

- tampa levantada

- quem enfiasse lá a bola à primeira tentativa ganhava a aposta…

O que apostavam? Deixo para os apostadores. Certo é que 9 em 10 era o canhoto da Horta a limpar. 

Durante a formação, a necessidade de passar os valores do coletivo por vezes oblitera o individualismo próprio dos grandes solistas. Na medida certa, e para muitos daqueles egos insuflados por uma adolescência coroada com o justo título de melhor lá do bairro, essa modelação até que é desejável. Transforma o bom de bola no jogador de futebol. Nem o Maradona conseguia ganhar sozinho.

Necessariamente, a forma mas óbvia de atingir a diferenciação num meio altamente competitivo quanto é o de uma Academia de um grande clube, é através da demonstração da superioridade da(s) sua(s) armas, sejam elas de natureza técnica, física, ou mental. Todavia, para este quase Quasimodo da Horta, a superioridade física nunca passou de uma miragem, e com aquele olhar aluado à Bugs Bunny que se perdia algures entre franja desgrenhada e a pronúncia dos incisivos superiores não era de prever que morasse ali um líder.

Iuri tinha seguido as pisadas do outro menino ilhéu que entretanto havia conquistado o Mundo. "Se o Cristiano conseguiu, porque é que eu não vou conseguir?"

Iuri sabia que tinha um talento: enfiava uma bola num caixote do lixo a 40 metros como ninguém. É que aquela raquete no pé esquerdo é muito trabalho com bola… sobre uma montanha de talento. O Iuri e a bola, a bola e o Iuri. O Iuri tinha o primordial ingrediente para se tornar jogador: entendia a bola como ninguém.

Queremos sempre encontrar o jogador que está 90 minutos ligado ao jogo, que nunca ocupa um espaço ocupado, que parece saber sempre onde a bola vai cair. Penalizamos duramente o jogador 'pisca-pisca', mais ainda aquele talentoso que aparece e desaparece do jogo conforme a bola lhe bata, ou não, à porta.

Assim, Iuri, há não muito tempo atrás, foi dado como um caso perdido.

Nas fabulosas seleções de Rui Jorge parecia não acompanhar a rotação dos outros, por vezes até parecia baralhar o plano de jogo da própria equipa, tal a forma diferenciada como se expressava com bola e a inequidade da sua presença em campo quando não a tinha.

Hoje Iuri já não é o jogador pisca-pisca. Vemos que passou a procurar algo em si que não lhe é imanente, a tal concentração competitiva que lhe permite mostrar os dentes (não é difícil…) desde o primeiro minuto. E a verdade é que… consegue. Iuri durante os primeiros 20 minutos de jogo é um jogador para qualquer equipa, a qualquer nível. Falta-lhe apenas conquistar os restantes 70.

Ainda relaxa, principalmente quando lhe assuma a convição de que está a cumprir, momento a partir do qual passa a gerir em demasia a sua participação no jogo. Não se ausenta, mas assiste em demasia. É o miudo que tem tudo, até o talento em estado puro, para ser o brinca na areia, mas está a demonstrar que quer ser muito mais do que isso.

Juntando este trabalho interior, esta força de vontade para se superar, a uma irresponsabilidade própria dos rebeldes e dos abençoados, primeiras partes como aquela com que impactou o Estádio da Luz, serão, de ora avante, mais e mais frequentes.

Não nos iludamos. Iuri, por apenas cumprir durante uma fração do jogo, não é um jogador de segundas partes. Ele é um organizador, ele é um provocador, ele intimida e pauta o respeito com que a equipa adversária enfrentará o seu conjunto. Iuri precisa de estar em campo cada vez mais tempo, cada vez mais solicitado, cada vez mais exposto e testado. Iuri tem muito futebol, um futebol que está a ganhar o seu fio condutor numa maturação 'late harvest', e que se alimentará a si mesma à medida que o jogador perceber que efetivamente o esforço está a valer a pena. Iuri ainda não é, mas está a transformar-se no jogador que já não acreditavam que ele viria a ser.

Abonado o fazendeiro que tenta fazer omeletes com os ovos podres de outros enquanto paga para ter um jogador assim a brilhar pelo… Boavista.

"Diz-me qual é o teu caixote do lixo!"

Provocação própria da adolescência que parece ainda abundar por Alvalade.

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