A Ligue 1, já foi um campeonato vibrante, ao contrário da tradição tricéfala do campeonato português, até aos dias de hoje, foram 19 os clubes campeões de França, sendo que 4 destes já nem sequer existem, e outros mais conheceram dias de glória muito diferentes daqueles que vivem hoje. Um dos principais motivos é o efeito pernicioso da concorrência desleal do PSG no contexto interno.
Razão para dizer: não sobreviveram para competir na farsa deprimente em que se transformou a liga francesa, onde o orçamento absurdo do PSG dita a sua lei!
A antecipação do título, a sete jornadas do fim, é um claro sintoma desta doença que assola o futebol francês: a lei do capital (neste caso árabe) sobre a força do trabalho (das várias escolas de formação de excelência espalhadas por toda a França).
O problema central reside na disparidade financeira, com o PSG, impulsionado por um investimento colossal, a distanciar-se de todo os outros competidores. Esta situação é inclusive uma das razões pelas quais observamos à fuga de talentos do campeonato francês. Um jogador, ou treinador, com mentalidade de conquista e ambição quer competir numa liga onde as hipóteses de ser campeão sejam reais. A incapacidade que todos os restantes clubes têm de competir com o PSG leva à saída de jogadores promissores para outros campeonatos, e ao desinteresse do público, com a falta de competitividade a afastar os adeptos dos estádios e da televisão.
Embora não tendo a força da tradição de campeonatos como o inglês ou o italiano, a França enquanto país/mercado, e enquanto berçário de talentos, tem tudo para rivalizar com as melhores ligas da Europa, mas perante este cenário competitivo não pode contentar-se com mais do que sendo a menos interessante entre as “Big 5” atrás de Espanha, Itália e Alemanha, isto para não falar de Inglaterra que usa e abusa da Ligue 1 como mercado abastecedor de talentos quer para Premier quer para o Championship.
Para resgatar a competitividade da Ligue 1, e até para benefício da própria competitividade europeia do PSG, será necessário implementar um fair play financeiro mais rigoroso, com regras mais apertadas para limitar o investimento excessivo e promover a igualdade financeira. Apesar de mais justa do que a situação que acontece por cá, a liga francesa deveria ter uma distribuição mais equitativa dos direitos televisivos, reduzindo a disparidade, permitiria que os clubes menores investissem em infraestruturas e talentos. A limitação do número de jogadores estrangeiros seria outra medida, e uma reestruturação do calendário, com uma Taça da Liga mais atrativa, aumentaria a competitividade interna. Por fim, o incentivo máximo à formação seria a obrigatoriedade da integração de mais talentos das academias nas equipas principais, o que por si só redesenharia a própria política desportiva do PSG.
A Ligue 1 precisa de uma reforma urgente para resgatar a competitividade e o interesse do público. As soluções que apresento são apenas um ponto de partida para um debate mais amplo. Mas como está, e para prejuízo de todos, o futebol francês assistirá a mais casos como aquele que recentemente aconteceu com o Bordeaux.
