A escolha de Martín Anselmi para o comando do Futebol Clube do Porto gerou uma onda de comparações precipitadas que não devemos alimentar.
Com uma carreira como treinador principal apenas na sua terceira temporada, o argentino já está a ser rotulado como o "novo Ruben Amorim" ou até mesmo comparado o próprio André Villas-Boas em inicio de carreira. Esta generosidade que temos para com as novidades de além Mar, é fenómeno muito português que não deixa de me enternecer, mas que deveria preocupar desde logo o próprio treinador argentino que, a vir mesmo para o FC Porto, terá uma tarefa hercúlea pela frente, e não haverá nada melhor para a sua adaptação ao futebol europeu do que saber gerir as espectativas em torno da sua contratação.
Anselmi treinou no Chile e no Equador até chegar ao Cruz Azul do México. Um argentino em road trip pelo futebol sul-americano. Foi na passagem pelo Independiente del Valle, clube equatoriano conhecido por sua formação, e onde sucedeu ao excelente trabalho do treinador português Renato Paiva, que ganhou a reputação conquistando a Copa Sul-Americana em 2022, um feito notável para um clube equatoriano. No entanto, é crucial lembrar que o contexto sul-americano, especialmente o equatoriano, está longe de se equiparar às pressões e exigências do futebol português de elite. Para mais quando herdou uma equipa oleada pelo modelo de futebol de Renato Paiva, reconhecidamente um dos melhores formadores de equipas e de jogadores que o futebol português exportou para o mundo. Treinador este que se encontrar livre por sinal e que eu não descartaria para o comando de qualquer clube nacional.
Agora interessa avaliar a inusitada ideia de Villas-Boas de importar Anselmi para a Liga Portugal. O facto do treinador argentino ser representado por agente nacional é razão suficiente? Não será, no mínimo, prematura?
Para mim é claro, então estas comparações com Ruben Amorim só se podem ter fundamento na necessidade de dar uma forma ao vazio de julgamento critico que ao dia de hoje existe em Portugal sobre quem é afinal o Martin Anselmi. Uma coisa é clara, não é o novo Amorim. O Ruben, antes de sua passagem de mérito pelo Sporting, já tinha uma ligação profunda ao futebol português. Foi um atleta de elite e como treinador não andou a perder tempo como adjunto, e mesmo sem a devida formação, assumiu logo o comando dos projetos que abraçou e sempre com resultados sem precedentes quando comparado com aqueles que substituiu. O argentino, por outro lado, será necessariamente um completo forasteiro, sem conhecimento da nossa Liga, e mais significativo que isso, sem experiência prévia no futebol europeu.
A comparação com Villas-Boas é ainda mais forçada. Embora ambos tenham iniciado as suas carreiras ainda jovens, quando Villas-Boas arriscou passar a treinador principal já tinha um histórico de gloriosas conquistas no Porto, e como parte da equipe técnica de José Mourinho, tinha até experiencia de Premier Legue antes de assumir o comando dos Dragões, onde aos 33 anos já havia conquistado um titulo europeu para Futebol Clube do Porto. Anselmi chega sem qualquer bagagem de futebol europeu de alto nível.
O sistema tático de Anselmi, que favorece um futebol de ataque e de posse que assenta em apenas três defesas (semelhante aquele que Co Adriaanse aplicou no Dragão), pode ser intrigante e é até aliciante projetar com adaptar esse estilo à realidade da Liga Portugal, e ao próprio plantel do clube azul e branco.
Se tivesse sido uma opção de início de temporada, teria toda a pré-epoca tempo para revolucionar o futebol do FC Porto. Agora com a pressão da classificação no campeonato, e a exigência dos adeptos do Porto não será tarefa fácil para um treinador que terá de, também ele, aprender quase tudo sobre o seu novo contexto.
Apenas tendo em conta determinadas conjunturas de mercado, é compreensível que a estratégia da direção da SAD do Porto tenha passado pela opção "solução inovadora", mas rotular o jovem treinador como "novo messias" é, não apenas injusto para com o treinador, mas perigosamente ilusório do seu impacto imediato nos resultados de curto prazo da equipa. O futebol português tem uma exigência tática muito particular, e o sucesso ligas menos competitivas do que a nossa, não garante uma transição suave.
Anselmi pode surpreender e ter sucesso, mas é crucial mantermos as expectativas realisticamente em baixa. O FC Porto precisa de estabilidade e de resultados, não de comparações exageradas e rótulos prematuros. O tempo dirá se Anselmi é o homem certo para o desafio, mas, por enquanto, é prudente conter o entusiasmo e dar ao treinador o espaço necessário para provar o seu valor sem o peso de comparações que vendem ilusões, mas que podem destruir carreiras, antes mesmo destas começarem.
