Menos dinheiro. Melhores resultados. Um Clássico
Há-de chegar o tempo em que o dinheiro compre tudo no futebol. Felizmente, ainda estamos longe desse dia em que o futebol deixará de ser o que é.
O Caldas, com uma equipa de carpinteiros, agricultores e empregados de comércio, chegou, até ver, às meias-finais da Taça e, com menos dois dias de recuperação do que o Aves, só não saiu com um empate da primeira mão porque... porque. Bonito foi ver uma equipa de recursos muitíssimo mais limitados do que o projeto de primeira da Vila das Aves açaimar os profissionais pelo rigor, pela maturidade, e pelo espírito do grupo da cidade da loiça. Bem sei que dar a posse de bola às equipas de José Mota é como alimentar um diabético a pão de ló e esperar que ele viva até aos 100 anos, mas, mesmo assim, e uma vez mais, encontrámos na Taça de Portugal um exemplo clássico de como no futebol a capacidade financeira pode não ser tudo.
E o que dizer deste FC Porto sem fair-play financeiro, sem contratações de internacionais canarinhos, sem roubar craques aos rivais, sem treinador titulado, ou por outras palavras, por comparação com o FC Porto de Antero Henrique, que dizer deste FC Porto sem cheta?
Coitadinho do crocodilo, dirão alguns. Efetivamente o FC Porto quase sempre teve excelentes plantéis.
Se existe ilação a ser retirada do início desta temporada, é que o plantel do FC Porto havia ficado basicamente igual, ou muito perto disso, daquela equipa que na época anterior havia falhado retumbantemente pela principal razão de não ter sido bem gerida e aproveitada. Lá contrataram um quarto ou quinto guarda-redes na boa tradição azul-e-branca de ter guarda-redes até para o caso da Peste Negra atacar o Olival. Despiciendo. Relevante foi constatar que a par com a redução com custos salariais, e das comissões pagas no mercado, consolidaram-se contas, e redescobriu-se um Porto à Porto, com fome de bola, fome de vitórias, e capitães com mais de 6 meses de casa.
Ninguém fez mais mais-valias no futebol mundial do que o FC Porto do século XXI, e nenhum clube português desbaratou tanto dinheiro, atrás de legítimos devaneios de grandeza dos títulos europeus de Mourinho e Vilas-Boas, como o 'Flopetegui' Clube do Porto do atual selecionador espanhol.
Quantos ex-jogadores do Barcelona e do Real Madrid tinha o campeão europeu de Mourinho? Se a pergunta for quantos ex-jogadores do Alverca e da União de Leiria foram titulares na final contra o Monaco a resposta será mais fácil, e mais fácil ainda será se contarmos os jogadores com mais de 3 anos de clube, alguns deles com toda uma vida de Dragão ao peito.
"O dinheiro não traz felicidade mas ajuda muito...", lá diz o povo. Ao mesmo tempo que também diz "Muito dinheiro não dá saúde a ninguém..."
No futebol é tão fácil inebriarmos-nos com os golos como com os milhões e perdermos pelo caminho a identidade de um clube.
O FC Porto, no meio da tempestade, encontrou caminho, o único caminho que o guindou ao sucesso num passado ainda recente. Boa seleção de recursos humanos e aproveitamento de todo o seu potencial. Estabilidade e blindagem do grupo. Foco permanente na personificação coletiva do olhar ambiciosamente alucinado do seu treinador.
Este é o grupo que não é desestabilizado há duas janelas de mercado. Todos sabem que, não podendo o clube contratar, existe um projecto desportivo de médio prazo para cada um dos atletas e que no final prevalecerá a meritocracia dentro do grupo, sem quem este seja surpreendido por apostas pessoas em colegas vindos de campeonatos menos exigentes, com uma semana de treinos, às vezes menos.
Onde estão ao dia de hoje os ex-jogadores do Inter e do Barça que 'reforçaram' o Benfica nos últimos dias do mercado de verão? Quantos reforços de inverno serão titulares logo à noite?
Não há verdades absolutas na gestão desportiva, mas por muito que isso possa entristecer, jornalistas, adeptos do desportivo de café, ou investidores/especuladores que vêm os jogadores e os clubes como quaisquer outras 'commodities'. Existem boas práticas que, na maioria vezes, dão efetivamente bons resultados.
Involuntariamente, o FC Porto investiu desinvestindo. Assim adquiriu o principal recurso necessário para ganhar uma competição de regularidade, como é o caso da Liga NOS, e que é a estabilidade.
Sem o planear, está hoje a utilizar os recursos do melhor que sobrou de várias temporadas mal planeadas. Mal planeadas por um número de razões. Na minha opinião, pela razão principal de que se acreditava ter suficientes recursos para poder falhar.
Havendo muito ou pouco, um clube nunca tem o suficiente para falhar. Invista mais no scouting e na análise, selecione bem os seus mercados, acima de tudo antecipe sempre as janelas de mercado a 6 meses/1 ano de antecedência e nunca corra atrás da última Coca-Cola no deserto. Ou o mais certo será acabar com mais umas quantas Coca-Colas fora de prazo no plantel e arriscar eternizar a travessia do deserto. É um clássico.
