Nuno Félix

Nuno Félix Scout internacional

Mesut Özil: alemão quando ganha, emigrante quando perde

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Numa decisão surpreendente que está a chocar o futebol internacional, Mesut Özil, internacional alemão do Arsenal, renunciou à seleção com apenas 29 anos, alegando que não pode continuar a aceitar o "racismo e desrespeito" que ele diz ter enfrentado ao longo da seu percurso desportivo na Alemanha.

Özil tem sido o centro das atenções pelos motivos errados desde maio, quando ele e o igualmente internacional alemão Ilkay Gündogan, ambos de origens turcas, foram fotografados com o presidente turco Recep Erdogan durante uma visita oficial em Londres.

Enquanto Gündogan rapidamente veio pedir desculpas por qualquer mal-entendido dizendo que "honra os valores alemães a 100 por cento" e que nunca pretendeu fazer uma declaração política, Özil optou por permanecer em silêncio.

Após receber centenas de mensagens de ódio e várias ameaças, Özil pôs agora um ponto final na sua relação com a Nationalmannschaft. "Sou alemão quando vencemos, mas sou imigrante quando perdemos", disse.

É bom lembrar, Özil tem 92 internacionalizações A e foi eleito jogador do ano da seleção nacional cinco vezes desde 2011. Mas tratamento de que tem sido alvo, diz, fê-lo "deixar de ter vontade de usar a camisola da seleção alemã". E disse mais: já não se sente aceite na sociedade alemã, apesar de pagar impostos na Alemanha e de ter sido figura maior da conquista do campeonato do Mundo em 2014. "É com o coração pesado, e depois de muita ponderação, que, devido aos recentes acontecimentos, por racismo e desrespeito, deixarei de jogar pela Alemanha a nível internacional."

A Alemanha, que tem uma imensa população de imigrantes turcos, criticou a repressão de Erdogan à dissidência política, mas Özil disse que estaria "desrespeitando as raízes dos seus antepassados" se não posasse com o presidente turco. "Não era sobre política ou eleições, era sobre eu respeitar o cargo mais alto do país da minha família." disse então.

Estas cândidas declarações do atleta provocaram inevitavelmente um debate feroz na Alemanha.

Stephan Mayer, secretário de Estado do Ministério do Interior, disse à BBC (televisão pública do país onde o jogador trabalha...) que Özil era "ingénuo" por achar que a imagem não era política, dado que foi tirada semanas antes da eleição turca.

Parte da indignação de Özil foi dirigida a Reinhard Grindel, presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB), que acusou de tentar torná-lo num "bode expiatório" por não ter feito o seu próprio trabalho.

Nem o treinador Joachim Löw ficou à parte da polémica. Como se não chegasse a discutível opção por deixar Sané a ver o Mundial pela televisão, ainda pediu a Ozil que interrompesse as férias e fizesse uma declaração pública para encerrar o assunto. Um género de acto de contrição que, muito bem, o atleta não aceitou.

Özil revelou detalhes da conversa com o presidente da DFB. Embora o atleta tenha tentado explicar a Grindel a sua herança cultural e ancestralidade, este estava muito mais interessado em falar sobre suas próprias opiniões políticas e em menosprezar opinião do jogador. Mesmo assim, e embora entendendo este paternalismo com ofensivo da sua dignidade, decidiu que a melhor coisa a fazer era se concentrar-se no futebol e no competição na Rússia. 

Escreveu agora Mesut Özil na sua carta de renúncia à seleção nacional: "O tratamento que recebi da DFB, e de muitos outros, faz com que não queira mais usar a camisola da seleção alemã. Sinto-me indesejado e penso que o que conquistei, desde a minha estreia internacional em 2009, foi esquecido . Não suportarei mais ser um bode expiatório da sua incompetência e incapacidade de fazer seu trabalho adequadamente (referência a Grindel)."

"Pessoas com preconceitos racistas e discriminatórios não evem poder trabalhar na maior federação de futebol do mundo que tem jogadores de famílias de várias origens. Atitudes como as dele simplesmente não refletem os jogadores que supostamente representam. Aos olhos de Grindel, e seus apoiantes, sou alemão quando vencemos, mas sou imigrante quando perdemos."

"Estou desapontado, mas não surpreendido pelas ações de Grindel. Mas quando outros altos dirigentes da DFB desrespeitam minhas raízes turcas, e me transformam em propaganda política, então basta!"

Assim que Özil divulgou seu comunicado, Uli Hoeness, o homem que novamente preside ao maior clube da Alemanha (Bayern Munique) depois de uma ausência forçada..., veio a terreiro dar o tom com que esta decisão foi acolhida pela elite do futebol alemão. "O Özil há anos que não joga nada", disse Hoeness à SportBild. "Desde 2014 que se esconde de si mesmo, e agora quer esconder este desempenho de m... por trás desta fotografia. Sempre que jogamos contra o Arsenal, jogamos com ele, porque sabemos que ele é o ponto mais fraco da equipa."

Palavras para quê... Fica agora mais bem explicado o desastre alemão no Campeonato do Mundo de 2018.  Apenas resta saber até que ponto terá a DFB capacidade de diagnosticar corretamente o fracasso, e, à imagem do que fizeram em 2000, alterarem o que está mal.

Atendendo à natureza dos novos velhos tempos que vivemos todas as reservas são legítimas!

P.S.: A política, uma vez mais, a aproveitar-se do futebol e a ajudar à sua decadência.

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