Olho no jogador

Nuno Félix
Nuno Félix Scout internacional

Não há vacina para este dérbi

Chamam-lhe o jogo do ano, não sei se assim será. Mas por muita razão com que queiramos apagar essa ilusão, o 7-1 ou o 3-6 estarão lá sempre para nos iluminar.

Quis a bola que os eternos rivais chegassem à 30.ª jornada demasiado apertados.

O Sport Lisboa e Benfica entra em campo na liderança e, aconteça o que o que acontecer, assim sairá de Alvalade.

O Sporting Clube de Portugal começa o jogo demasiado longe do título prometido mas ficar a 5 pontos da cenourinha já é coisa que deixa o sportinguismo mais otimista, a sonhar com uma remontada histórica.

Rui Vitória já provou saber vencer e entrará a ganhar meio a zero, caso seja dele a iniciativa de finalmente cumprimentar o seu opositor ao final de 5 embates, onde o fair-play foi efetivamente uma treta para quem deveria dar o exemplo em todas e quaisquer circunstâncias. Fogo com fogo se combate, mas o que do futebol português está mesmo a precisar é alguém que deite a água na fervura. Desde a antiguidade que a verdadeira glória é aquela que resulta do reconhecimento por parte do adversário e, nesse capítulo, Rui Vitória ainda não chegou lá.

A história dos dérbis faz-se à parte dos registos oficiais da FPF, e a verdade é que o Benfica de Vitória ainda não foi capaz de indiscutivelmente superiorizar-se ao Sporting de Jesus. Mesmo quando ganhou, nunca o fez de forma eloquente e concludente, e, em boa verdade, nada leva a crer que o jogo de amanhã venha a ser memorável pela qualidade do futebol encarnado.

Jesus é grande, mas o risco de perder o dérbi é muito maior. Entre a glória do resultado e a vergonha com nota artística, ao dia de hoje, já veio o Mister e escolheu. Caso não aconteça um contragolpe do destino, será o pragmatismo a calçar de início.

Dentro do retângulo, nada se espera de novo, ou talvez apenas o facto de, por uma vez, os treinadores de ambas as equipas resolverem deixar as experiências e as armas secretas para jogos menos marcantes.

Este será o jogo dos jogadores com J maiúsculo. Será o jogo do Rui Patrício e do Adrien, do Jonas e do Luisão. Eles serão as âncoras e os faróis. Quem de mais novo aparecer, continuará a sua carreira com outro moral. Certo é que o árbitro, os treinadores e os dirigentes não figurarão como marcadores na ficha de jogo.

Por fora joga ainda quem tem a ganhar, ou a perder, com o resultado do jogo de Alvalade. Os recentes episódios que têm vindo a pontuar a atualidade dita desportiva em nada ajudam a que a bola entre mais vezes na baliza do topo norte ou na baliza grande do topo sul. É que até com contas de merceeiro chegamos lá. Muito para além da paixão do adepto está o negócio da, legítima e muito honrosa, atividade de entreter as massas. O futebol profissional é isso mesmo, um fabuloso negócio de entretenimento que quanto mais valores positivos incorporar mais consumido e valorizado é. E não nos confundamos, entretenimento não é alienação, pelo que não queiram alienar-nos do essencial desta fabulosa modalidade: a sua extrema dificuldade de execução; a enormíssima variabilidade dos fatores de sucesso individual e coletivo; os excecionais momentos de dramatismo decididos pela mais pura sorte ou infortúnio. No fundo, as regras do jogo do qual se diz ter sido inventado por cavalheiros para ser jogado até contra rufias, mas sempre dentro das quatro linhas...

Quem estiver na intenção de se deslocar ao estádio para substituir as suas 4 dioptrias ao vídeo-árbitro que tarda, que fique a assistir às repetidas repetições na televisão em sala de estar. Sempre poupa os vizinhos de bancada à perturbação que causa quem não vai ao estádio para assistir ao espetáculo do futebol. Que poupe principalmente aqueles mais merecem fruir desses 90 minutos de intensas e inesquecíveis emoções, os que sendo adeptos ou até sócios de qualquer um dos clubes, se façam acompanhar pela mulher, filho ou amigo apoiantes do clube rival. Os golos marcados serão mais celebrados, os golos sofridos mais humildemente aceites.

Que o Estádio Alvalade XXI encha até não caber mais ninguém e que o verde e branco fique desportiva e pacificamente pintalgado de encarnado.

Que o resultado final seja uma vitória para todos os que não embarcam na clubite que mais não discute do que arbitragem. Quanto muito, guardem isso para a ressaca do dia seguinte.

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