Nuno Félix

Nuno Félix Scout internacional

Rafa Silva: diz-se que é craque

Adicione como fonte preferencial no Google

Disse-se que andou perdido pelo Alverca até rumar a Santa Maria da Feira e que parece impossível como um jogador com esta qualidade tenha escapado para o norte, bem nas barbas dos grandes de Lisboa.

Disse-se que António Salvador tinha planos ainda mais ambiciosos para o craque e que em tempos chegou a recusar uma proposta de 20 Milhões de um grande alemão.

Disse-se que foi a transferência mais mediática do último mercado, que há muito tinha tudo acordado com o Benfica até aparecer um interesse tardio do eterno rival dos encarnados, baralhando assim um negócio que parecia nunca mais se realizar.

Diz-se hoje que, por causa do Sporting, o negócio acabou por ficar muito mais caro para o clube da Luz, que o agente e o Sp. Braga queriam ver Rafa em Alvalade pelas mais valias que iriam realizar com o negócio, mas que no fim imperou a palavra do jogador, e o compromisso assumido com Luís Filipe Vieira. O Sporting só se terá intrometido no negócio para especular e depauperar o rival?! Foi o que se ouviu dizer.

Mas era ele o jogador que Jorge Jesus queria. Até se vai dizendo que para aplacar Jesus, Bruno de Carvalho teve que mandar vir em empréstimos milionários dois extremos de renome, dois jogadores adiados, como o foram as suas transferências, e que tardam em demonstrar serem superiores, por exemplo, aos emprestados Daniel Podence e Iuri Medeiros.

De Rafa Silva diz-se que é extremo, diz-se que é avançado, diz-se que é 10. Já muito se escreveu sobre ele, mas poucos falam de como não evoluiu como se esperava desde que explodiu no Feirense, de como sentiu a passagem para a 1.ª Liga e que na sua época de estreia pelo Sp. Braga foi prejudicado por inconstâncias e lesões, como aquela que sofreu assim que se estreou pelo Benfica.

Quem com ele treinou, diz que podia trabalhar melhor durante a semana. Se o fizesse, seria hoje um jogador ainda melhor, uma primeira escolha para a Seleção, mas que para quem foi sempre o melhor por onde passou, as suas qualidades lhe bastavam.

Isto tudo é o famoso 'diz-se que disse', vale o que vale.

Vamos a factos: no campeonato transato teve uma média de 58 minutos por jogo, e fez 2 assistências para golo.

Mesmo atendendo à posição preferencial, vulgarmente alcunhada de extremo, mas que no seu caso é muito mais a de um avançado interior preferencialmente descaído pela esquerda, mesmo atendendo a um estilo explosivo de jogo atreito a desgaste rápido e lesões, não há justificação bondosa para este registo. Não é pela estatística que Rafa vale o que vale e joga hoje na Luz.

Rafa é um jogador com condições extraordinárias, com lugar no onze de Rui Vitória, porque o que dá ao jogo é muito mais do que aquilo que efetivamente produz. Há que vê-lo jogar, há que observar o desalinho das defesas adversárias quando receciona um passe de 40 metros e no mesmo movimento dirige a ventoínha em que transforma as suas botas, e em alta rotação encara o adversário direto com a bola controladíssima e sem medo de, indo para cima dele... errar.

Perda de bola é o que tantas vezes resulta das suas opções. Se não for isso, teremos uma penetração em posse ou por via de um passe de rutura sempre optimista. Ou tenta ele mesmo o remate, seja na área ou de meia distância. É um gesto que lhe sai natural e que quando o deixam executar com o devido tempo e enquadramento sai bomba daquele pé direito.

Independentemente do mérito da decisão ou do resultado objetivo da ação, o que interessa é que entretanto a sua equipa acreditou, o público nas bancadas exaltou, a defesa contrária temeu e muito provavelmente... recuou.

O 'efeito Rafa' é uma arma que todo o treinador gosta de ter e da qual, daqui em diante, Rui Vitória não vai prescindir.

Qual será a velocidade que Rafa perde quando tem a condução da bola? Se tal acontece, não é evidente. A jogar entre linhas, ou a receber em transição ofensiva na esquerda, é sempre um potencial 'game changer'. Foi ele uma das armas secretas que Fernando Santos usou para desentrincheirar a nossa Seleção nas batalhas de França. É o jogador para quem o jogo só tem um sentido e para quem o jogo está sempre demasiado lento porque ele é daqueles que executa ao dobro da velocidade dos restantes.

Mas é igualmente um jogador para quem o jogo não tem estratégia, nem cada jogada tenha um plano. Se alguns jogam sempre em velocidade de cruzeiro, Rafa raramente reduz a cadência, assim como que transmite a ideia de que muito do que faz é fruto de uma memória motora e não de um processo de decisão. Aliás, essas mesmas decisões parecem vir sempre com um ligeiro atraso relativamente à rapidez da execução, ou decorrentes do improviso a que as vicissitudes de uma execução acelerada assim o obrigaram.

Dito isto, honra lhe seja feita, por esforço próprio ou pela simples gravidade dos anos que já vai tendo como profissional, tem vindo a maturar. Foi evidente a cultura tática que demonstrou no dérbi, em particular nos momentos em que a sua equipa recuperou a bola e Rafa abriu na esquerda, num movimento que repetiu por diversas vezes e que desafiou a plasticidade defensiva do esquema de Jorge Jesus, desequilibrado nas laterais por jogadores de perfil inferior ao exigível.

Rafa é o jogador que qualquer 'scout' procura encontrar numa idade e numa circunstância contratual como aquela em que despontou no Feirense. Um jogador com um futebol ainda primitivo, de excecional relação com a bola, que não teme os espaços curtos ou a vertigem do campo aberto para atacar. Um jogador cada vez mais raro e que não se fabrica nas academias com modelos formativos franchisados, em que os toscos têm que ter tanto a bola quanto os predestinados, ou os pais deixam de pagar o leasing do sintético. Porque triveladas como aquela com que assistiu Salvio para o primeiro da noite são o gesto técnico proibido que nenhum formador autoriza. Só o aperto da marcação simultânea de cinco amigos, um buraco no recreio da escola, e a bola, ensinam aquelas pérolas.

Rafa é o jogador dos subúrbios de Buenos Aires que nasceu no Barreiro e que por pouco escapava a quem o devia ter captado mais cedo. Assim, teria somado à qualidade dos seus pontos fortes, a lapidação dos seus defeitos tanto como executante quanto como jogador de equipa, e no final deste processo teríamos um Marco Reus 'made in' Portugal.

Assim temos o Rafa Silva, o que já não é nada mau.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade