Nuno Félix

Nuno Félix Scout internacional

Soares: um Derlei que sabe a Lima

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Era o dia 31 de Agosto de 2012 e já passava das 10 da noite, António Salvador e Luís Filipe Vieira haviam abusado de bluff. Retido até ao último segundo na Pedreira, entra num Porsche e é conduzido a altíssima velocidade a caminho da capital. O registo da transferência havia de dar entrada no TMS da FIFA apenas um par de minutos antes de este fechar para Portugal. Pinto da Costa ficou a ver passar Lima pela Invicta, ele que julgava ter o jogador reservado para o seu FCP. A história diz-nos que o prolífero avançado, de talento mais do que confirmado ao serviço do outro grande do Minho, havia de ser um jogador imprescindível para o início do ciclo de conquistas encarnadas. Pinto da Costa deve ter pensado muitas vezes como o deixou escapar, ele que estava ali tão perto.

Num passado não muito distante, Pinto da Costa havia conquistado tudo! Campeonato, Taça e Liga Europa, para no ano seguinte ainda trazer a Champions para Portugal!!! É certo que tinha ao serviço 'O Treinador', mas com que jogadores? Mourinho não queria divas, ele queria jogadores disponíveis, humildes mas ambiciosos, que fossem com ele, e por ele, até onde as suas mais ténues réstias de força e de talento os conseguissem levar e se possível... mais além.

Lembram-se? Na frente jogavam em simultâneo 3 jogadores! Era aquela primeira versão do Super-Porto de Mourinho que dava gosto ver. No centro, ou descaídos nos flancos, trocavam os 3 jogadores. Tão diferentes nas suas raízes como nos seus predicados. Jogava o miúdo das Caxinas que teria aceite com gosto seguir as pisadas da família como pescador mas cujo talento para tratar a bola haviam empurrado para um estrelato precoce. Hélder Postiga era, nas palavras de José Mourinho à época, um jogador que podia ser um dos melhores do Mundo... se quisesse.

Jankauskas alterava com Clayton na titularidade e, dependendo da opção, um homem lutador, de movimentos presos e de rosto marcado, próprio de quem subiu às nuvens escalando cada obstáculo a partir da Fossa das Marianas, assumia o papel de matador ou de bandarilheiro. Derlei não era bonito de ver jogar, por vezes quase parecia haver por ali perdido um carregador de piano que algures no jogo ficou a jogar no lugar de um outro qualquer avançado mais elegante e digno do lugar... com nota artística.

Mas se excetuarmos o Mágico Deco que tanto atacava como defendia ao nível do que de melhor alguma vez vimos num mesmo jogador da Liga Portuguesa, Derlei era, num só jogador, era a personificação de toda uma equipa. Mesmo deselegante em tudo o que fazia tinha classe. A classe de quem não sendo o melhor em nada, conseguia tirar todo o partido das capacidades que tem à sua disposição. E não tinha vindo de longe nem custado milhões. De Leiria ao Porto não chegam a ser 2 horas de viagem, com passagens anteriores pelo Madureira, pelo Guarani e pelo Atlético do Natal, o seu nome e o seu 1,75 metros não impressionavam ninguém.

Certo é que naquele trio, sendo até menos virtuoso do que Clayton, era sem margem para dúvida o mais indispensável.

Recentemente, e enquanto ainda acabam de sarar as feridas de uma pós ressaca à traição lopeteguiana ao ADN do clube, sabiamente, o dirigente com mais títulos conquistados do futebol mundial, resolveu voltar à velha e humilde receita que internacionalizou o FC Porto. Jogar o básico, contratar o essencial. Se o problema desta equipa não está nos golos que deixa marcar, mas sim naqueles que perdoa ao adversário, do que o FC Porto de Espírito Santo necessitava como do pão para a boca era de um avançado. Um avançado que marcasse golos, mas que não necessitava de marcar todos os golos.

André Silva tem de jogar até porque continua a ser um projeto de avançado de classe mundial para valorizar. Um avançado que soubesse jogar mas que não precisava ser fino, o Óliver trata dos apontamentos e o próprio André Silva, coadjuvado à vez por Corona e Otávio, tratam dos restantes pormenores. Um jogador de equipa porque para solista da orquestra já lá mora Brahimi. Um jogador que pisasse tão bem os terrenos interiores como os exteriores à caixa da área, porque o pinheiro belga que nem o Natal conseguiu despachar ainda por lá anda, e bola para o mato é futebol que este FC Porto felizmente não pratica. Por fim, o mais importante: o jogar que entrasse tinha de ser um jogador para jogar, que não tivesse de aprender a língua, nem de adaptar o paladar.

Soares será, já o foi no sábado passado, tão útil para o Porto como o Derlei o foi no seu tempo, e importará para o futebol azul e branco, a importância que Lima tinha na forma de jogar dos primeiros Benficas de Jesus.

Sendo um lutador de fisionomia marcada, tal como Derlei, Soares acrescenta a este na capacidade que tem de jogar como referência de ataque tendo uma condução de bola mais fluída, mais ao jeito de um Lima antes de virar os trinta. Na presença de área, com a evolução da capacidade que tem, e que parece ainda ter por explorar, igualará os registos do ex-avançado do Benfica e poderá mesmo vir supera-lo até pelo suas características como atleta. Alto, leve mas forte, de passada larga e pouco esforçada, junta uma leitura de jogo na antecipação, que lhe é inata, a uma razoável capacidade de impulsão e de explosão no momento da finalização.

Veloz q.b. e resistente, é corajoso nas divididas, mas igualmente nas opções que toma em posse. Tem plena confiança, quer que no seu poder atlético, quer na sua relação com a bola. Muito correto na forma como aborda as receções, toma sistematicamente a decisão mais elementer, mas consistentemente com grande facilidade e rapidez. Esta será por ventura a característica própria dos jogadores que estão preparados para jogar em qualquer palco, façam, ou não, a diferença.

Soares é no essencial um avançado, um jogador muito focado na baliza mas a quem pode ser pedido todo um conjunto de missões quer no plano ofensivo, quer na reconquista da bola. Assim sendo, jogará confortavelmente num 4-4-2 emparelhado com o avançado da seleção portuguesa, como pode assumir a referência de área num 4-3-3, ou até atuar descaído se a interpretação deste esquema for mais agressiva ou o jogo requerer outra efetividade no último quarto do terreno. Como o faziam Derlei e Lima com igual facilidade.

Como está, está muito bem, e para lá do efeito surpresa que hipoteticamente poderá ter provocado contra o Sporting, o que é de esperar é que com um superior entrosamento venha ainda a melhorar.

Soares pode até parecer que apenas jogará o básico, o feijão com o arroz, mas só quem nunca comeu um bom feijão com arroz pode dizer que não sacia. Certamente que o jogador de 26 anos feitos, e feito na Paraíba, nem agora longe da sua terra natal o deve dispensar. Pois que lhe continue a fazer muito bom proveito, acompanhado pelas carnes ricas trazidas da América do Sul ou das tripas apuradas no Olival de Gaia, quem sabe, este mero acompanhamento de Inverno, ainda passa a prato principal.

E se há muitos que dizem que Pinto da Costa já tinha perdido a mão, a meu ver o brasileiro é o tempero certo para uma equipa insonsa, e este Porto com Soares é fixe.

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