Há coisas que estão pré-instituídas no futebol: estás a perder, metes mais um avançado; estás a ganhar, metes mais um central.
Ao intervalo Rui Borges falou com os seus jogadores tendo por base 56% de posse contra 44% do adversário que jogava em casa. Vantagem por 1 golo no marcador com 0,48 de expected goals para 0,15 do FC Porto; 8 remates contra 3; 0 defesas para o Rui Silva; 266 passes contra 204; 10 livres a favor e só 3 contra; 12 cortes ganhos para 8 do Porto; 69% de duelos ganhos no solo e 77% ganhos no ar; 8 dribles em 13 com eficácia para apenas 2 em 7 da equipa de Anselmi…
Não vale a pena ser mais fastidioso. Rui Borges, mesmo que com sérias limitações na composição do onze, devido ao momento atlético e clínico de vários dos seus melhores jogadores, conseguiu montar uma equipa disciplinada e dominante que, com e sem bola, mostrou estar sempre em controle do jogo, e em todos os seus momentos demonstrar uma maturidade e acutilância que este novo Porto ainda está longe de alcançar sem com isso pagar com uma exposição em demasia ao risco.
Tivesse o jogo apenas a primeira parte, poderia este texto intitular-se "Rui Borges, daqui a 3 anos estará num grande clube europeu".
No entanto assim não foi, como nunca o é ou virá a ser. O jogo teria sempre 90 e tal minutos, mais confusão menos confusão (coisa com que o Sporting já pode contar no Dragão, atendendo a que teve 8 expulsões nos últimos 4 Clássicos) e, como tal, Rui Borges, para mais estando a vencer e na liderança isolada do campeonato, privilegiou evitar aquilo que temia vir a acontecer, em vez de jogar o jogo com aquilo que o jogo lhe estava a oferecer.
Enquanto manteve a sua organização defensiva em 4-4-2, para mais reforçada nesta vertente com a substituição forçada de Simões por Debast, o FCP teve sempre grandes dificuldades em ligar o seu jogo, em particular em tirar proveito do jogo interior e assim municiar de bolas e de espaços o génio de Rodrigo Moura. A pressão posicional muito bem organizada e temporizada entre a expectativa ativa e os momentos de necessária agressividade coletiva ofereceram-nos momentos de cultura tática de manual. Com bola os desdobramentos sobre uma estrutura em construção num clássico 4-3-3 cumpriam propiciando linhas e opões no ataque sem comprometer em demasia a transição defensiva. Na frente Harder desconstrui-a o trio defensivo azul e branco pelo seu trabalho defensivo enquanto Trincão o fazia igualmente com outra classe e por outra ferramenta através de sucessivos arrastamentos em transporte que desafiavam os limites da frustração dos defesas que o interpelavam.
20 valores para Rui Borges nos capítulos da introdução e desenvolvimento da história que queria ter escrito no Dragão.
Mas eis que se depara com a agressividade tática de Martin Anselmi. Trio defensivo desmontado e mais criatividade e linhas de construção com a entrada de Fábio Vieira. E é neste momento que se observa o processo mental de um conservador por contraponto com um revolucionário (ou não tivesse sido a Argentina igualmente o berço de Che Guevara). Rui Borges percebe a reação e recua. Fá-lo conscientemente e sem ser forçado, aproveita já ter Debast em campo e enterra-o ao centro de Diomande e Inácio. E nem é preciso chegarmos a falar da entrada tardia de Matheus Reis para reagir à largura que Gonçalo Borges oferecia desde à 20 minutos, foquemos-mos no que resultou ter oferecido o meio campo ao Porto e abdicado de uma pressão à primeira fase de construção azul e branca.
Teve 8 remates bloqueados na sua grande área e alguma sorte por nenhum deles ter encontrado o rumo da baliza.
Acredito que o momento do plantel, com muitos lesionados e falta de opções no banco tenha desempenhado algum papel no processo de decisão do transmontano, mas a máxima de ontem, como a de anteriormente, e que será a do futuro, é sempre o velho e sábio "mais vale uma na mão do que duas a voar".
Recuo de linhas, reforço da defesa com a variação para 3 centrais quando se está em vantagem, substituições tardias ou sim ou sim, parecendo mais obedecer a um plano prévio do que ao jogo está a pedir, são marcas de um conservador.
De Rui Borges não podemos esperar goleadas e esplendor sobre a relva, dificilmente reinventará jogadores noutras funções e posições, impressionará pelo rasgo nas suas reações táticas e estratégicas. No longo prazo acredito que esta ponderação poderá dar os seus resultados.
Mas uma coisa é certa, ontem, a alma conservadora de um transmontano deu vida ao Futebol Clube do Porto quando poderia ter arriscado elimina-lo enquanto seu um competidor ao título. Veremos no final da Liga se Anselmi lhe dará os parabéns ou se lhe agradecerá pela oportunidade que o Sporting lhe deu e este novo para não apenas se reafirmar na disputa pela Liga, mas acima de tudo, por lhe ter oferecido a oportunidade de demonstrar a sua identidade enquanto "treinador diferente" e assim lançar fé no seu futebol dinâmico e de ataque, que faz agora valer o bilhete para quem se deslocar ao Dragão.
