Vivemos o tempo dos assassinos
No prenúncio da queda dos Impérios, o circo e a violência dançaram de mãos dadas para entretenimento das massas e gáudio dos cleptómanos dos regimes que acabaram falidos.
Venderam a intolerância sob a forma de convição, e a vontade ditada pelo poder tomou o lugar da lei escrita que protegia a sociedade da força bruta.
Queremos desligar os fenómenos mas não conseguimos, queremos esquecer a história mas ela teima em perseguir-nos.
O Mundo em que viveremos durante os próximos tempos é sombrio, e para lá do ilusório conforto da nossa sociedade liberal, não nos restam dúvidas de quem determinará o essencial da nossa existência coletiva. Serão os democratas e humanistas do calibre de Putin, Trump, Erdogan, Al-Assad, Kim Jung-Un que lançaram os dados e virarão a mesa sempre que estiverem a perder.
Somos portugueses, amamos o desporto e muito provavelmente somos apaixonados pela mesma modalidade, mas inundados pela global odiocracia, soterrados na notícia da cobardia que grassa, desfocamos do essencial e quase sem darmos conta a dada altura esquecemos o que nos une e tomamos como nossas as dores de gente que no limite deveria ser pedagogicamente afastada do fenómeno desportivo.
Foi possível assistir ontem ao Borussia Dortmund-Monaco sem termos presente que o encontro foi adiado 24 horas devido a um ataque abjeto que afastou Marc Bartra do espetáculo no Signal Iduna Park? Nem por um minuto devemos esquecer que há tanto que é muito mais importante do que o futebol. Mas não podemos deixar-nos vencer pelo medo e pelo terror. Temos de continuar resilientes a afirmar os valores da partilha e da fruição coletiva de momentos de salutar e justa competição. E grande exemplo que deram o clube e os adeptos alemães na forma como apoiaram a sua equipa sem deixar de amparar todo o prejuízo que o adiamento do jogo trouxe para os adeptos monegascos.
Lembramos agora que este é o clube que foi salvo da insolvência em 2004 por um empréstimo do seu maior rival, com quem tem vindo a disputar títulos da Bundesliga e até uma final da Champions na última década.
Para memória futura ficou uma enormíssima partida de futebol, plena de golos, as exibições assombrosas dos miúdos Mbappé e Pulisic, e aquela magistral jogada e abertura do Bernardo para o primeiro do Monaco ou a deliciosa assistência com o calcanhar do Aubameyang. No fim, a ovação dos adeptos do Monaco aos seus anfitriões e os jogadores de ambas as equipas, esgotados, abraçados entre trocas de camisolas.
O amor com amor se paga. O ódio e a violência só trazem atrás de si mais e mais daquilo que está na antítese da própria razão de ser do desporto, que é a representação de uma atitude. Uma atitude de lutar pela excelência e pela superação contra os adversários e com os colegas de equipa. Só há verdadeira vitória pelo comportamento ético e pelo jogo limpo, com fair play na vitória e na derrota.
"Não interessa como ganhaste ou perdeste, mas como jogaste o jogo."
E quando é que ouvimos um pai dizer isto a um filho num jogo de formação? E quando é que um técnico de infantis incentiva assim o grupo retirando-lhe o peso do desempenho, incentivando os jovens à cultura de valores e princípios que em adultos levarão consigo para a vida?
O desporto é a mais excecional ferramenta pedagógica, para o bem e para o mal.
Muito por via de uma sociedade cada vez mais mediatizada, voyeurista e exibicionista, do consumo imediato, do relativismo moral levado ao absurdo e que parece aproveitar a todos os dirigentes que não quererem assumir as responsabilidades para as quais foram eleitos, temos vindo a ser confrontados com imagens podemos julgar no silêncio das nossas consciências sem o filtro da censura de qualquer outro interesse.
Jogadores que se agridem em campo, dirigentes que se interpelam grosseiramente fora dele, claques que invadem espaços reservados aos agentes do jogo, árbitros coagidos fisicamente até na sua vida pessoal, pais que insultam os filhos dos outros pais, comentadores que puxam pelo pior argumento que o adversário tenha para lhes oferecer, branqueando os comportamentos anti-desportivos do clube que suportam e que não raras vezes os suportam a eles.
No tempo das bombas, da coação e da violência, não podemos esperar soluções provenientes de entidades superiores. Não esperemos que sanções decretadas por agentes alheios ao fenómeno sejam bondosas para o desporto ou para o futebol em particular. Mas por este caminho, algum dia necessariamente elas virão, e quando alguém voltar a perder a vida violentamente num campo de futebol não chorem lágrimas de crocodilo pelos jogos à porta fechada, pelas irradiações das competições europeias, pelos clubes despromovidos e severamente multados.
Têm de ser os clubes a agir. Têm de ser os clubes, como grandes famílias desportivas que são, a educar os seus atletas e a escolher os seus adeptos e simpatizantes. Não podemos continuar a encobrir quem abusa da relevantíssima utilidade pública que estas instituições têm para a nossa vida em sociedade.
O desporto é-nos útil enquanto nos trouxer a paz e a alegria.
Por muito que custe ser consequente com a verdade desportiva que dizem defender, os nossos dirigentes desportivos têm de ser os primeiros a dar o exemplo aos seus atletas e adeptos através da descrispação da linguagem. Da valorização do resultado do esforço e do talento dos seus atletas em campo. Através da proteção da competição como um todo.
Quando tudo é trocado por milhões, até para os mais cínicos é fácil perceber, imagens como as da agressão do jogador do Canelas a um juiz de campo, e que correram Mundo, depreciam em boa medida o valor que o futebol português conquistou no passado verão em França. Ou quando a justiça desportiva se escuda no processo para evitar ser interveniente na competição e acaba por influenciar por omissão a verdade desportiva...
A mensagem que passa é a de que o crime compensa.
Das duas uma, ou assumimos que os clubes estão manietados, a diversos níveis, por criminosos perigosos e potencialmente violentos, e, como tal, os próprios clubes não têm as condições de liberdade necessárias para continuarem a ser os promotores da prática e dos valores do desporto, ou acreditamos que estas instituições são guiadas por pessoas de bem, leais à nobre história centenária que em muitos casos os precedia, e serão capazes de, com tempo mas firmemente, afastarem estas maçãs podres do seu seio.
Vivemos o tempo dos assassinos do nosso modelo social radicado na tolerância e na paz.
Matar o desporto será a sua maior vitória.
O Campeonato do Mundo de futebol já interrompeu a Intifada na Palestina, não deixemos transformar o Canelas na nossa Cisjordânia ou a 2.ª circular na Faixa de Gaza da capital.
