Record

Assinatura Digital Premium Saiba mais

Ângulo inverso

Nuno Santos
Nuno Santos

A Justiça também chegou ao futebol

Uma das tragédias da sociedade portuguesa e um claro sinal do nosso atraso é a forma como a Justiça tem sido exercida ao longo das últimas décadas. Com razão foi criada a ideia que os "ricos e poderosos" estavam a salvo e que alguns setores de atividade nunca eram escortinados, quanto mais objeto de investigação séria. Mesmo a legislação parece ter sido criada à medida e vemos hoje condenações em diferentes instancias que se arrastam em intermináveis recursos. O futebol é uma das áreas que sempre pareceu a salvo da Justiça em termos latos e, mais estranhamente, da designada justiça desportiva, excelente para uns processos de circunstância, mas inoperante em assuntos ditos quentes. Uma sensação de impunidade, talvez só idêntica em Espanha, foi sendo criada ao longo de anos enquanto noutros países, de França a Itália, da Grécia a Inglaterra houve mão pesada.

Separemos as águas. As operações desencadeadas pelo Ministério Publico que visam Benfica e Sporting e que culminaram já com a acusação deduzida aos encarnados no Processo E-Toupeira são um sinal de maioridade. Sim, o Benfica tem inteiro direito à presunção de inocência e deve exercer a sua defesa da forma que entende incluindo, se tal fizer parte da sua estratégia, desacreditar a acusação. E, cada um de nós, terá em relação ao tema a sua convicção formada pelo que é conhecido. O essencial, no entanto, não é a minha opinião nem a sua, caro leitor. O importante, para quem quiser ter uma abordagem séria, é o princípio. A investigação de eventuais irregularidades envolvendo meios adequados está certa, cabe agora fazer prova da acusação.

Se a Justiça agiu nos últimos anos contra altos responsáveis políticos ou da banca porque ficaria o futebol de fora? Ora, sabe-se que o tempo da justiça e o tempo mediático não são iguais e há um dano de reputação que atinge o Benfica, como atingirá o Sporting se for deduzida acusação no Processo Cashball. Sobre isso os clubes podem queixar-se, mas não agir como virgens ofendidas.
Noutro plano também as penas exemplares da justiça desportiva, mesmo com recursos pendentes, é um sinal de que alguma coisa está a mudar. E aqui a reação dos clubes foi bastante previsível e bastante irresponsável. Em vez de sensibilizar os adeptos para não repetir determinados comportamentos fez-se a tradicional fuga para a frente. Talvez seja mais popular e, ao menos no caso do Benfica – que está acossado – contribua para mobilizar as tropas, mas é um ato falhado porque o futebol só será melhor com espetadores que vão para o estádio apoiar de forma entusiástica, mas dentro da lei a sua equipa. Comportamentos ofensivos não servem a ninguém. Estar a dizer o contrário é defender o indefensável.



A HORA DE FAZER E NÃO DE FALAR

O novo Presidente do Sporting esteve bem ao escolher a Sporting TV para a sua primeira entrevista. Foi um gesto simbólico, presumo, até porque para Frederico Varandas a comunicação será importante, mas não pode condicionar o seu mandato. O Sporting pagou um preço demasiado elevado por ter falado demais, por ter falado por tudo e por nada e pelo ter feito muitas vezes pela voz de um Presidente que era um incontinente verbal. A própria Comissão de Gestão falou muito mais do que deveria, embora neste caso contasse com boa imprensa ao contrário de Bruno de Carvalho que se deitou na cama que andou a fazer.
A chegada de Varandas à liderança do clube após um processo tão traumático é, com toda a certeza, um virar de pagina. Um tempo novo, de otimismo renovado que o clube necessitava. Mas, não haja equívocos: Tendo feito sair o anterior líder pela porta pequena, a multidão sportinguista apreciou o trabalho (não o estilo) de Bruno de Carvalho que transformou o Sporting e o recolocou de novo na primeira linha de todas as modalidades e também do futebol. Frederico Varandas já mostrou que, com o seu registo, não quer andar para trás. Pelo contrário. E essa foi uma das razões da sua escolha.



PEPE
A simbólica centésima internacionalização de Pepe e o facto de ter envergado a braçadeira de capitão evocam mostram bem o que é o futebol dos nossos tempos. Hoje – e bem – ninguém se lembra que o central, de 35 nos, não nasceu em Portugal porque, na verdade, ele se sente tão português como qualquer um de nós. A sua folha de serviços na Seleção seria suficiente, mas Pepe, com a mulher e filhos portugueses, vive intensamente o país mesmo estando a jogar fora há mais de uma década. Num momento de transição ele, tal como Cristiano Ronaldo, fará a ponte para as novas gerações.

BRUMA
Quando Bruma saiu em rutura do Sporting alguns admitiram que, estando a partir cedo demais, se pudesse desperdiçar um talento potencial. Jogando em ligas difíceis, como a turca ou a alemã, o extremo formado em Alcochete mostrou ter crescido e evidenciou uma maturidade que podem vir a ser importantes no novo ciclo da Seleção. Para já, nesta fase da época, está à frente de Gelson Martins, que tem tido dificuldades para se impor em Madrid.

Deixe o seu comentário
M M